segunda-feira, 29 de junho de 2026

A ameaça de guerra do século XXI entre China e Taiwan: A conturbada relação no Estreito e o impacto na conjuntura sino-americana - Parte 2

Taiwan como o centro de atenção na política externa chinesa

Os atritos entre China e Taiwan têm raízes profundas e se mostram como uma das questões mais complexas no cenário mundial contemporâneo. Tais raízes devem-se ao fato de que a ilha foi governada pela China há séculos, porém foi ocupada pelos japoneses de 1895 a 1945, e, após a Segunda Guerra Mundial, Taiwan foi novamente devolvida à China. Contudo, após o governo do Partido Nacionalista Chinês (Kuomintang - KMT) perder a Guerra Civil Chinesa para o Partido Comunista Chinês (PCCh), membros do KMT se exilaram e estabeleceram um governo na ilha de Taiwan e, desde então, aquela localidade tem demandado uma gestão governamental independente em relação à China, que nunca a reconheceu como uma nação autônoma.

Nos últimos anos a situação entre China e Taiwan tem se deteriorado, visto que a China tem aumentado a pressão diplomática sob Taiwan, realizado inúmeros exercícios militares perto da ilha e, inclusive, lançando mísseis próximos à região, com o agravante dos Estados Unidos reprovarem as ações chinesas e estarem frequentemente enviando navios militares e realizando exercícios naquela região, além da frequente visita de políticos americanos à referida ilha nos últimos anos.

A China considera Taiwan como uma província rebelde e que, portanto, deve ser reunificada. Tal posição é baseada na doutrina de “Uma China”, que afirma que Taiwan é uma província chinesa. Porém Taiwan tem se mantido independente da China desde 1949 e ignorado os pedidos chineses, também ancorada pelo fato de que grande parte da população de Taiwan é a favor da independência da ilha. A política internacional de defesa de Taiwan sofre influência de vários fatores, dentre os quais podemos destacar: o poderio militar chinês, a interdependência dos Estados Unidos e China, o grande desenvolvimento de Taiwan e as divergentes opiniões sobre os atritos entre a ilha e a China.

A presença dos Estados Unidos no Mar da China serve como uma forma de dissuasão para que o país não tome Taiwan à força, além do que os Estados Unidos têm se usado de uma "ambiguidade estratégica" em relação à situação, isto porque o governo estadunidense não deixa explicito em momento algum que defenderia a ilha caso a China optasse por uma invasão. Porém, os Estados Unidos têm mantido uma forte presença militar na região, o que gera dúvidas na China se os norte-americanos iriam interferir ou não em um possível conflito. Assim como a OTAN tem feito com a Ucrânia, os Estados Unidos têm fornecido treinamento militar e armas para Taiwan. Porém, a presença estadunidense no Mar da China não pode ser vista apenas como uma dissuasão, pois tal fato pode resultar em implicações de grande vulto para todas as partes envolvidas, sejam elas os Estados Unidos, a China ou Taiwan.

Quando um forte animal, como um leão, por exemplo, tenta capturar um porco-espinho, ele se depara com um animal muito menor e mais fraco, que não aparenta ser agressivo. Porém, este leão se vê de frente com um animal cheio de espinhos, com uma capacidade de defesa avassaladora, e quanto mais forte e agressivo for a força agressora contra este porco-espinho, mais danos o agressor sofrerá, o que irá incorrer em feridas dolorosas e uma provável desistência desse animal em capturá-lo.

Usando-se do mesmo princípio de um “porco-espinho” em repelir um agressor muito mais forte, Taiwan há décadas se prepara para uma possível tentativa de invasão chinesa e, para tal, investe pesado em armamentos para aumentar sua defesa, como, por exemplo: mísseis terra-ar, armas antinavios e minas navais. O fato de Taiwan ser uma ilha a beneficia muito, tendo em vista a dificuldade e complexidade de um desembarque anfíbio, que é considerada a manobra militar mais complexa. Esta tem se mostrado uma estratégia poderosa para dissuadir a China em iniciar uma guerra assimétrica, mesmo que o gigante asiático tenha uma explícita superioridade militar e tecnológica.

Estima-se que uma tentativa de desembarque anfíbio por conta da China pode resultar em uma perda de 60% dos meios empregados. Tal estratégia defensiva tem por base a dissuasão, a resiliência, a capacidade de negar à China o acesso às terras de Taiwan e a complexidade da operação na mais complexa e adversa manobra militar conhecida, que seria um desembarque anfíbio em Taiwan, localizada no Mar da China com uma distância compreendida pelo Estreito de Taiwan, que tem 180 km de largura no ponto mais estreito. Diante da contextualização acima, esta parte tem por objetivo compreender as tensões entre China e Taiwan.

O passado

O conflito China-Taiwan é um dos pontos mais sensíveis da história recente da região do Mar Sul da China. Taiwan, ou República da China, já havia sido colonizada por Portugal no século 16 e pelos holandeses no século 17, esteve sob domínio japonês de 1895 até o fim da segunda Guerra Mundial, quando forças antagônicas, comunistas e membros do Kuamintang, disputaram o poder na China durante a Guerra Civil e consideraram que a ilha era parte do território chinês. Porém, quando os nacionalistas liderados por Chiang Kai-Shek perderam a Guerra Civil e fugiram para Taiwan em 1949, afirmavam que a República da China era governante de direito de todo o país, estando sediada em Taipei. Para os comunistas que triunfaram na disputa, após recuperarem o controle de Macau e Hong Kong, Taiwan simboliza o último estágio da Guerra Civil e o passo final da restauração da integridade territorial do gigante asiático, abalada desde meados do século 19, quando se iniciou o chamado “século de humilhações”.

O “século de humilhações” é o período entre 1842 e 1949 em que a China saiu perdedora em diversas guerras tendo parte de sua soberania solapada nos “tratados desiguais” iniciados ao final da primeira guerra do ópio travada com a Inglaterra entre 1839-1842. Os comunistas consideram que esse período de degradação nacional se encerra com sua chegada ao poder em 1949, liderados por Mao Tsé Tung, após a guerra civil travada com o Kuomintang.

Em termos de segurança nacional, os líderes chineses consideram a localização de Taiwan perigosa para estar sob a influência de uma potencia rival, devido a sua proximidade com a China continental e seu potencial estratégico da região. Nesse contexto, a relação EUA e Taiwan se fortaleceu durante a guerra fria, quando Washigton passou a instaurar bases na ilha, fortalencendo assim o governo taiwanês. A ameaça à soberania de Pequim na região foi o fator motivacional para que o PCC invistisse cada vez mais em suas forças armadas.

Para a China Taiwan representa a ultima etapa na superação do que e conhecido como “século da humilhação”. Período entre o final do século 19 e início do século 20. Em termos de segurança nacional, os líderes chineses consideram a localização de Taiwan perigosa para estar sob influencia da maior potencia mundial. Os japoneses, durante seu domínio, costumavam chamar a ilha de “porta aviões inafundável”. Os norte americanos, durante a Guerra Fria também utilizaram bases na ilha, com o consentimento dos nacionalistas do Kuamintang.

A relação dos EUA com a China tornou-se muito estreita com a chegada do Kuomintang ao poder e especialmente a partir da ascensão do Presidente Chiang Kai-Shek, um cristão convertido com fortes influências ocidentais representando o sucesso diplomático de Washington, que desde o final do século 19 enviara missões diplomáticas para a China na tentativa de molda-la à imagem do ocidente. O ataque à Perl Harbor, na Segunda Guerra Mundial, naturalmente colocou China e Estados Unidos como aliados frente ao Império Japonês.

Não obstante, quando o Kuomintang foi derrotado pelos comunistas na China continental e fugiu para a Ilha de Taiwan, foi natural que esse bom relacionamento entre os nacionalistas chineses e os Estados Unidos permanecesse. No entando, o Departamento de Estado norte americano, no começo de 1950, determinou que apesar da preocupação com a possibilidade das forças nacionalistas sediadas em Taiwan serem invadidas pelos comunistas chineses, não estava militarmente em posição de intervir. O que logo veio a ser revisto com a eclosão da Guerra da Coréia.

A agressão da Coreia do Norte representava o expansionismo das forças comunistas, forçando o EUA a fortalecer os laços com seus aliados asiáticos. Esse estágio inicial da Guerra Fria culminou com o tratado de aliança com a República da China, sediada em Taiwan, em 1954, incorporando a ilha ao sistema de segurança coletivo sob o comando dos EUA no leste da Ásia.
Lockheed F-104A Starfighter do 83º Esquadrão de Caça Interceptador na Base Aérea de Taoyuan, Taiwan, em 15 de setembro de 1958, durante a Crise de Quemoy
A partir de então, Taiwan se torna um parceiro estratégico vital do ocidente na política de contenção do comunismo internacional, abrigando bases aéreas norte americanas. Com o arrefecimento da Guerra Fria e a aproximação diplomática dos EUA com a China, a ilha taiwanesa começa a perder o seu protagonismo como aliado estratégico para os Estados Unidos, levando ao fim, em 1979, o tratado de defesa mútua entre os Estados Unidos e Taiwan por exigência de Pequim.

O congresso americano, preocupado com a continuidade do compromisso de segurança norte americano firmado com Taiwan, e temendo avanços da China comunista sobre a ilha, aprova o "Taiwan Relations Act" em 10 de abril de 1979. O ato demonstra a seriedade que Casa Branca encara o compromisso com Taiwan, mas é ambíguo em termos de qual seria a resposta no caso de uma agressão chinesa. As relações norte americanas com Taiwan passam a ser não mais pelas vias diplomáticas tradicionais, tornando-se um raro caso em que Washington estabelece relações de defesa com outro ente estatal através de uma organização privada, o The American Institute in Taiwan, que na prática era responsável pelos intercambios comerciais, culturais e de defesa.

Nos anos 1980, estava claro que a parceria Washington – Taipei não era mais calcada na contenção do comunismo, tratava-se principalmente de um vínculo de compromisso com um antigo aliado, até que mudanças internas em Taipei e novas preocupações com Pequim reacendem o interesse norte americano pela ilha.

Com a promulgação da Lei Antissecessão de 2005, os artigos 8 e 9 da lei estipulam que caso as possibilidades de reunificação pacífica sejam exauridas, a China tem a possibilidade de fazer uso de coerção visando proteger sua integridade territorial e soberania através de meios que minimizem os efeitos de vindouras incursões militares.

O ingresso na guerra na Península Coreana

A participação chinesa se deu, em grande parte, frente à possibilidade de se envolver em uma guerra em duas frentes, devido ao interesse manifesto de Chiang Kai-shek em enviar tropas da Ilha de Taiwan para a Península Coreana. Para os EUA, a Guerra trouxe a necessidade de se estabilizar a situação no Estreito para focar esforços na Península. Logo após a eclosão do conflito coreano, o presidente Truman ordena o envio da Sétima Frota dos EUA para o Estreito de Taiwan, estabelecendo-se um impasse na Guerra Civil. No início daquele ano, Truman havia declarado que, apesar dos EUA reconhecerem o governo do Guomindang (Kuomintang, KMT) como único governo da China, as Forças Armadas americanas não interfeririam em um confronto entre comunistas e nacionalistas. A neutralização do Estreito é visto pelos chineses como interferência direta em seus assuntos internos. Essa rivalidade estratégica é aprofundada ainda mais pelo General MacArthur, quando esse afirmou ainda que ‘arranjos foram concluídos para uma coordenação eficaz entre as forças americanas sob o meu comando e as forças do governo chinês’.

Isso deu a entender que tropas nacionalistas chinesas estavam prestes a serem introduzidas na luta coreana. Como mais tarde ficaria patente, em suas declarações de uso do arsenal atômico contra a China seguido de invasão terrestre, MacArthur buscava preparar a derrocada do comunismo na Ásia através de iniciativa ofensiva. A abertura de uma frente de batalha na Península Coreana era do interesse de Chiang Kai-shek, tendo em vista sua proximidade à Manchúria, região estratégica chinesa e local onde se iniciou sua derrota para os comunistas após a Longa Marcha de Mao Zedong (Mao Tsé-Tung). O líder do KMT dava declarações que iam ao encontro das de MacArthur.

A possibilidade de envio de tropas nacionalistas na Península é análoga à experiência chinesa nas Guerras Sino-Japonesas. O Tratado de Shimonoseki (1895), deu soberania ao Japão sobre a Ilha de Formosa; e fez a China abdicar de sua influência sobre a Coreia, processo que se concluiu em 1910 com a anexação japonesa da Península. A criação do Estado fantoche de Manchukuo (1932), na Manchúria, pelo Império Japonês, sucedeu a invasão da região, o que se tornou possível pela sua presença na Coreia. Durante a Segunda Guerra Mundial, os bombardeios aéreos iniciais sobre Xangai (1937) e Chongqing (1938) partiram de bases em Formosa e ajudaram no avanço japonês sobre o continente.

As interpretações mais tradicionais acerca da decisão chinesa em entrar na Guerra apontam principalmente para o internacionalismo comunista e para a lógica da segurança nacional como motivadoras principais. Na análise aqui proposta, busca-se trazer a questão de Taiwan, e consequentemente da reunificação nacional, como fator implícito na decisão chinesa. A possibilidade de se verem envolvidos em uma nova guerra em duas frentes pode ser percebida como um fator importante para a decisão dos comunistas chineses em entrar na Guerra, mesmo sem apoio soviético. Na sessão de reuniões no dia 13 de outubro a cúpula do Partido decidiu o envio de tropas, mesmo sem apoio aéreo.

A preocupação chinesa estava calcada em considerações estratégicas, não ideológicas. Além disso, a intenção de estabelecer um impasse para se permitir um retorno à diplomacia, enquanto se prepara para a continuação do combate caso esta falhe, é condizente com o momento estratégico vivido pela China. Assim, em 19 de outubro, os chineses entram na Coreia para que a correlação de forças novamente se alterasse, permitindo novo avanço das tropas comunistas, mais dois anos de intensos conflitos, e o retorno da fronteira para o Paralelo 38.

As primeiras Crises dos Estreitos

Durante a década de 1950, o Estreito de Taiwan foi o palco de novas tensões. Os enfrentamentos, ocorridos respectivamente em 1954-55 e 1958, vieram a ser chamados de Primeira e Segunda Crise do Estreito. Em 1954, a frota americana se posicionou no Estreito como forma de evitar uma confrontação direta. Nesse episódio que o então Presidente dos EUA, Eisenhower, declarou que não descartaria a utilização da bomba atômica em um possível conflito na região. Em 1957, foi então instalado o sistema de mísseis MGM-1 “Matador” na Ilha (868º Esquadrão de Mísseis Táticos em Tainan), que poderia levar ogivas nucleares para o continente.

A primeira crise iniciou-se em agosto de 1954, quando Jiang Jieshi determinou o envio de 73 mil homens para as ilhas de Jinmen e Mazu, que ficaram sob o controle do governo de Taipei. Em reação, Zhou Enlai afirmou que Taiwan deveria ser libertada. Os EUA passaram a pressionar os comunistas a não atacar as forças de Jiang Jieshi e enviaram a Sétima Frota para o Estreito de Taiwan. A partir de setembro, o governo comunista passou a bombardear Jinmen e Mazu, e posteriormente Dachen e Yinjiangshan, na costa de Zhejiang. A presidência dos EUA afirmou, então, que armas nucleares poderiam ser utilizadas “como se fossem balas”. Diante da ameaça e do não apoio soviético, Zhou Enlai anunciou a disposição de negociar. Apesar disso, as forças continentais conseguiram tomar as ilhas de Dachen (Batalha do Arquipélago de Dachen) e Yijiangshan (Batalha das Ilhas Yijiangshan).

Após a Primeira Crise, o governo de Chiang Kai-shek reforçou seus efetivos em Jinmen e Mazu e passou a incursionar em território chinês, por meios aéreos e terrestres. Em 1957, os EUA despacharam para Taiwan seu 868º Esquadrão Missil Tático, portando unidades do sistema “MGM-1 Matador” com capacidade de entregar ogivas nucleares. O “Matador” representava uma alternativa barata de espalhar radiação no território continental da China, visto que utilizava mísseis superfície-superfície – e não balísticos. Seu alcance, cerca de 1.000 km, tornava-o capaz de atingir grandes cidades chinesas. A possibilidade — mesmo que não comprovada — de que o Guomindang (KMT) pudesse acionar independentemente as bombas tornou-se um fator agravante nos cálculos chineses. Assim, em julho de 1958, Mao Zedong decidiu bombardear novamente Jinmen e Mazu, utilizando como justificativa o apoio à luta contra a intervenção “imperialista” estadunidense no Líbano pelos árabes.

Diante da ameaça nuclear estadunidense, a China buscou o apoio soviético. A União Soviética (URSS) manteve sua política de “Coexistência Pacífica” com os EUA e não se mostrou disposta a defender a China em um conflito nuclear por Taiwan. Os chineses tiveram de recuar e constataram que não poderiam contar com o guarda-chuva nuclear soviético. Somadas, a recusa de Moscou em transmitir tecnologia para o desenvolvimento do programa nuclear militar chinês e a falta de apoio à China na Segunda Crise do Estreito de Taiwan, provocaram o deterioramento das relações sino-soviéticas, que levou à ruptura em 1961.

A incapacidade chinesa em resistir à chantagem nuclear dos EUA produziu um intenso debate na cúpula do PCCh. Os defensores da criação de um programa nuclear militar próprio venceram o debate, alegando a necessidade urgente de reduzir a diferença tecnológica com os EUA. O resultado prático foi o surgimento, ainda em 1958, do Grande Salto Adiante. Este programa priorizava o desenvolvimento da indústria pesada, particularmente aumentar a produção de ferro e aço, por meio do incremento da industrialização rural. A industrialização rural também buscou descentralizar a produção industrial, o que a tornava menos vulnerável no caso do país sofrer ataques nucleares. Apesar de um início com bons resultados, problemas derivados principalmente do controle de metas e indicadores levaram ao fracasso do programa e um saldo de mortos estimado entre 16 e 27 milhões, por fome e trabalhos forçados.

Reatamento Sino-Estadunidense e Diplomacia Triangular

A Diplomacia Triangular de Nixon consistiu na aproximação com a RPC (China), em detrimento de Taipei, de modo a balancear a URSS. Um dos pontos centrais dessa aproximação era a garantia estadunidense de que a resolução do problema da unificação nacional seria de prerrogativa exclusivamente chinesa. Após o rompimento com a URSS, a China entrou em uma fase de progressivo isolamento internacional, consonante com a progressiva radicalização ideológica interna, que culminou na Revolução Cultural. Assim, ao final dos anos 1960, a China estava cercada por um ambiente internacional hostil. Além das tensões crescentes com ambas as superpotências, permanecia o impasse com o regime de Chiang Kai-shek.

Diante desse quadro, a China passou a reformular sua Política Externa e de Segurança. A cúpula chinesa percebeu que a URSS tornara-se o seu rival mais perigoso e que, no caso de um conflito, os EUA não poderiam apenas assistir “a luta dos dois tigres”, principalmente com a possibilidade de uma vitória soviética. Dessa forma, a melhor alternativa seria, nesse caso, promover os contatos diplomáticos com os EUA. O então Assessor de Segurança Nacional dos EUA, Henry Kissinger, escreveria mais tarde que a aproximação criaria o “triângulo estratégico de Nixon”, como modo de balancear a URSS. A visita de Nixon à China, em 1972, teve como resultado o Comunicado Conjunto, marcando o reconhecimento diplomático da República Popular da China pelos EUA; a existência de uma única China; e o reconhecimento de que a questão de Taiwan era um assunto interno chinês.

O reatamento entre China e EUA mudou repentinamente o papel de Taiwan no cenário internacional. O regime liderado por Chiang Kai-shek perdeu o assento que tinha na ONU para o governo comunista. Em 1979, quando foram estabelecidas oficialmente as relações diplomáticas entre a República Popular da China e os EUA, os EUA abandonaram as relações oficiais com o regime liderado pelo KMT, reconhecendo o princípio de “Uma China”. Essa inflexão teve reflexos regionais, em que o Japão reconhece o princípio de “Uma China”, e firma, com a RPC, a Cláusula AntiHegemônica (Comunicado Conjunto de 1972). As relações entre Taiwan e EUA continuaram a existir, porém por vias extraoficiais. Também em 1979, o Congresso estadunidense criou o Ato de Relações com Taiwan, que criava mecanismos para a manutenção de contatos com a Ilha por ações executivas, sem força de lei. Entre estes mecanismos, estava o Instituto Americano em Taiwan e a permanência do comércio de armas. Em 1982, a China e os EUA publicaram um comunicado em que os EUA comprometiam-se a diminuir progressivamente a venda de armas para a Ilha, sem que houvesse, todavia, um prazo definitivo para o seu término. Simultaneamente, os EUA deram “Seis Garantias” a Taipei, entre elas, a de não reconhecer formalmente a soberania da RPC sobre Taiwan. Paralelamente, as tensões interestreito arrefeceram durante a década de 1980 devido à aliança estratégica forjada entre RPC e EUA, tendo em vista a contenção da URSS. Assim, da mesma forma que vendia armas a Taipei, houve a criação do programa “Pérola da Paz”, segundo o qual os EUA promoveram massiva transferência de tecnologia na área de eletrônica embarcada para o caça J-8II.

O continente continuou buscando reintegrar Taiwan, não mais pela confrontação militar, mas pela combinação entre integração econômica e arranjo político-institucional. Do ponto de vista econômico, houve a criação das Zonas Econômicas Especiais (ZEE), entre elas Xiamen, o que poderia ser considerado um incentivo para que empresários taiwaneses investissem no continente. Do ponto de vista político e institucional, a Constituição de 1982 instituía o “Um País, Dois Sistemas” que propunha a criação de “Regiões Administrativas Especiais”, que manteriam seus sistemas político e social, cedendo ao governo de Pequim a soberania sobre política externa e defesa. Em Taiwan, viria a ocorrer a abertura política e o fim da lei marcial em 1987, e, simultaneamente, a ascensão de figuras nativas, dentre os quais o futuro presidente Lee Teng-Hui.

O fim da Guerra Fria e a Terceira Crise do Estreito

O fim da bipolaridade no Sistema Internacional entre EUA e URSS afeta profundamente a interação China-EUA e tem impacto direto na questão de Taiwan. A percepção chinesa de enfraquecimento de sua posição estratégica pode ser depreendida de dois eventos: os “Protestos da Praça de Tiananmen” e a Terceira Crise dos Estreito. O primeiro demonstra o fim do consenso criado a partir da diplomacia triangular de Nixon e as fraquezas político-diplomáticas da RPC. O segundo alerta para o atraso do Exército de Libertação Popular (PLA/ELP) da China e o progressivo distanciamento da RPC de completar a reunificação nacional, o seu principal objetivo desde a segunda conflagração sino-japonesa. Este alerta decorre da intervenção estadunidense durante a Crise, mesmo após as garantias feitas na década de 1970. Este foi um dos principais fatores que, segundo a maioria dos analistas, levou a RPC a atualizar sua estratégia e perfil de forças.

No Leste Asiático pode-se utilizar como evento-marco para o fim da Guerra Fria os “Protestos da Praça de Tiananmen”, ocorridos em meados de 1989. Em reação, os EUA lideraram, em nome da democracia e dos direitos humanos, a constituição de um embargo econômico conjuntamente com seus aliados. Esse evento demonstrou à China que seria necessário um reposicionamento de sua política externa e uma reformulação de seu pensamento estratégico. Um retorno à região, fundando um novo momento de integração regional e uma reestruturação de seu desenvolvimento econômico, agora voltado para o desenvolvimento interno. Dessa forma, testemunhou-se a ascensão do “dragão chinês” e o distanciamento asiático das diretrizes ocidentais, abrindo caminho para diversas inciativas de integração, como o ASEAN+3, a Comunidade do Leste Asiático, o RCEP e a nova Rota da Seda.

Contudo, ainda restava readequar a estratégia chinesa no âmbito militar. O evento que impulsionou este processo foi a Terceira Crise do Estreito, visto que ele evidenciou ao mundo as fraquezas do PLA. A crise tem, como contexto, o fato de que Taiwan considerava o Japão, seu maior parceiro comercial na Ásia, um importante aliado, e o próprio Presidente Lee Teng-hui chegou a declarar que o Japão defenderia a ilha no evento da declaração da Independência de Taiwan. Conjuntamente com o Japão, o
governo de Lee Teng-hui pretendia se utilizar do reposicionamento estratégico estadunidense para promover a independência taiwanesa, erodindo o fundamento principal das relações sino-estadunidenses: o princípio de uma só China. Dessa forma, a Terceira Crise do Estreito eclode no biênio 95-96, com a viagem do então líder taiwanês Lee Teng-Hui para os EUA, e pela autorização do governo deste país em lhe conceder visto de entrada. A ação representava, para alguns dentro da política chinesa, a institucionalização da separação entre a Ilha e o Continente sob os olhos estadunidenses. Em 1995, o PLA realizou testes de mísseis próximos a Taiwan e conduziu exercícios navais que simulavam assaltos anfíbios; os EUA reagiram enviando dois Carrier Strike Groups (CSGs) para a proximidade do Estreito com o intuito de prevenir a invasão chinesa da Ilha, ocasionando o fim das tensões militares sem uma resolução política.

O resultado da crise traz uma nova consciência de situação à RPC no que tange suas capacidades militares. Com a chegada dos CSGs, a RPC soube das suas limitações reais, no caso da necessidade de intervir na Ilha de Taiwan, frente à capacidade de projeção de forças estadunidense. Não lhe seria possível alcançar uma simetria de capacidades com os EUA, necessária para invasão da Ilha. A RPC já vinha estarrecida de outra mostra de forças estadunidenses, isto é, a Guerra do Golfo de 1991. Além disso, percebe que nem a interdependência econômica é capaz de garantir alavancagem junto aos EUA para atingir seus objetivos de reunificação nacional. É nesse ponto que a China passa a buscar incorporar no desenvolvimento das suas Forças Armadas as respostas assimétricas que lhe garantam liberdade de ação em suas águas próximas, que mais tarde seriam conhecidas como táticas Anti-Acesso e de Negação de Área (A2/AD). O primeiro conceito significa impedir a chegada das forças estadunidenses à área em questão, e o segundo impedir-lhes que, uma vez acessada a área, seja-lhes possível atuar dentro dela. 

Igualmente, a China não podia mais confiar apenas na massa das suas forças convencionais e na parceria com os EUA para o confronto com a Rússia, sua principal ameaça terrestre, e necessitou desmobilizar o PLA de atividades econômicas e empreender um processo de reformulação doutrinária e de modernização. Quanto aos EUA, sua investida contra a China no início dos anos 1990 serviu apenas para precipitar o impulso de aproximação entre os países asiáticos. Conforme expôs Friedman, esse período foi de redefinição estratégica para os EUA, porém os estadunidenses carecem de uma grande estratégia definida até os dias de hoje, nem mesmo a Guerra ao Terror foi capaz de aglutinar o pensamento estratégico estadunidense gerando uma percepção clara de seus objetivos para o resto do mundo.

Até 1997 o debate em torno da percepção de ameaça em relação aos seus recursos de poder se manteve fechado dentro do partido, vindo a público a partir de duas publicações que discutiam, de ponto de vista opostos, a situação da política mundial. De um lado, Yang Dazhou criticava a visão ortodoxa do PCCh de que o mundo se encaminhava para a multipolaridade, afirmando que os Estados Unidos continuaria a ser o único polo de poder por pelo menos 30 anos. Em defesa da percepção multipolar, um artigo publicado pelo General Huang Zhengji, defendia a tese do declínio estadunidense e de que guerras locais seriam disseminadas nesse período de transição.

A partir dessa data o foco chinês passou a ser no regionalismo, interiorização do desenvolvimento e modernização militar. Em termos doutrinários, isso se traduziu na busca pela capacidade de travar e vencer guerras locais sob condições informatizadas. Frente ao que percebe serem seus objetivos estratégicos históricos, a China percebe a contingência de ter de incorrer em guerras locais para cumpri-los. Tendo em mente o que foi exposto na sessão anterior, ou seja, a possibilidade de ter de enfrentar os Estados Unidos para concluir sua reunificação nacional, o foco da modernização militar chinesa passa a ser a busca de uma resposta assimétrica a capacidade de projeção de força estadunidense. É assim que surgem os conceitos “Anti-Acesso” e de “Negação de Área” (A2/AD). O primeiro significa impedir a chegada das forças estadunidenses à área em questão, e o segundo impedir-lhes que, uma vez acessada a área, seja-lhes possível atuar dentro dela.

A RPC vem aumentando seus investimentos em tecnologia bélica, e o avanço e modernização de suas técnicas A2/AD já vem causando preocupação entre os formuladores de política e analistas de estudos estratégicos estadunidenses. Após o fim da Guerra Fria e a desmobilização global de seus contingentes, os EUA, para poder atuar nos pontos chave do globo, necessitam enviar e manter forças marítimas nas áreas litorâneas em grande escala para influenciar as operações em terra. É nesse contexto que se encaixa a importância dos porta-aviões. O desenvolvimento das técnicas A2/AD, entretanto, impossibilita realizar plenamente essa projeção. O estado da arte das capacidades A2/AD consiste na saturação das defesas dos CSGs através do uso de mísseis lançados de terra e de destróieres. Focando tais mísseis no porta-aviões que chefia o CSG, seria possível desabilitá-lo e negar, ou pelo menos reduzir drasticamente, a atuação estadunidense na área.

A partir da percepção de que poderia ter sua capacidade de projeção de força negada, desenvolve-se nos Estados Unidos o Conceito Conjunto para Acesso e Manobra nos Comuns Globais (JAM-GC). Chamada anteriormente de Batalha Aeronaval (AirSea Battle), foi atualizada no início de 2015 pela Instrução 3010.02D do Presidente do Estado­Maior Conjunto dos Estados Unidos, mas ainda mantém o objetivo original: estabelecer um conceito operacional conjunto para contrarrestar o desenvolvimento das técnicas A2/AD. Seu desenvolvimento se deu a partir da percepção de que a capacidade de projeção estadunidense que serve ao propósito de manter o Comando dos Comuns (mar, ar e espaço), ou seja, a própria hegemonia dos Estados Unidos no sistema internacional ­ estaria ameaçada pelo A2/AD. A essência do caráter preemptivo desse conceito está contido tática NIA­D318: consiste em um ataque em profundidade, ou seja, no território inimigo para além do teatro de operações, a fim de Desabilitar (comunicações/satélites), Destruir (radares e centros de lançamento de mísseis) e Derrotar. O ataque inicial seria feito por aeronaves de guerra eletrônica equipadas com mísseis antirradiação, apoiadas por navios de superfície e submarinos equipados com mísseis. O alvo das aeronaves seriam os sistemas de comunicações e radares do adversário, para “cegá-lo” e impedir a sua guiagem de munição. Nota­se que para desabilitar os sistemas do A2/AD adversário, o JAM­GC precisa golpear preemptivamente para garantir a liberdade de ação na zona contestada.

Ao observar na análise histórica, as inflexões estratégicas chinesas são, de forma recorrente, dotadas de caráter reativo. Nesse mesmo sentido é proposta a nova estratégia militar chinesa, a inovação trazida pelo documento fica por conta da revisão das Diretrizes Estratégicas de Defesa Ativa. O conceito da Defesa Ativa refere-se, em primeiro lugar, a unidade entre a defensiva estratégica e a ofensiva operacional e tática. Ou seja, mesmo que se busque um perfil defensivo no nível estratégico, podese tomar a ofensiva no nível das Operações ou da Tática.

É importante ressaltar o foco dado às questões navais, ao controle de grandes crises, lidar com reações em cadeia, e salvaguardar a soberania e integridade territorial. Todos esses pontos dizem respeito ao que, historicamente, se fez presente na questão de Taiwan. A tomada de iniciativa estratégica, também mencionada na nova Estratégia Militar, se coaduna com um contexto em que ascende o nacionalismo na Ilha e, para manter a defesa de sua soberania em um contexto de estratégia defensiva, pode-se tomar a ofensiva do ponto de vista operacional ou tático.

Pode-se perceber que a nova abordagem adotada concilia duas das escolas de pensamento estratégico majoritárias na China: a que vê a Guerra Local como tendência para os confrontos futuros, e a que vê a Guerra da Revolução nos Assuntos Militares como regra. Enquanto a primeira defende que os confrontos futuros serão circunscritos a um teatro limitado, com vizinhos periféricos, e próximo à fronteira do país; a segunda corrente afirma que terá armas avançadas, satélites para comunicações e reconhecimento, aviões furtivos, armas nucleares e nanotecnologia, e vê como adversários como Estados Unidos, Rússia e Japão. A terceira escola seria a Guerra Popular, de mobilização massiva, em moldes maoistas, não contemplada nos desenvolvimentos recentes em matéria militar, mesmo que a questão dos grandes contingentes e da conscrição tenha sido mantida.

Como visto ao longo dessa parte, Taiwan é uma das questões principais no relacionamento entre China e EUA. Os eventos envolvendo Taiwan foram responsáveis por grandes alterações na formulação da estratégia destes dois países. Mesmo que no período da Guerra da Coreia e das primeiras Crises do Estreito a China tenha necessitado se estruturar para fazer frente à chantagem nuclear e à defasagem tecnológica, enquanto ainda passava pelo processo de reconstrução da segunda guerra sino-japonesa e da guerra civil, os EUA consideravam a China parte de uma política única para a contenção do comunismo e da URSS, o que ampliava o valor estratégico da Ilha para os EUA. Somente com a diplomacia triangular de Nixon se tirou proveito das diferenças sino-soviéticas e a China pôde aproveitar o ambiente externo, enquanto Taiwan paulatinamente perdia apoio. Com o fim da Guerra Rria ocorre uma reorientação estratégica estadunidense, pondo fim à diplomacia triangular, o retorno da rivalidade sino-estadunidense, corporificada na Terceira Crise do Estreito. Esta crise foi responsável por uma total reformulação das políticas econômica, externa e de defesa da PRC. Como foi abordado, o foco chinês passou a ser o regionalismo e a modernização militar. Em termos doutrinários, isso se traduziu na busca pela capacidade de travar e vencer guerras locais sob condições informatizadas.

As inflexões estratégicas chinesas são, de forma recorrente, dotadas de caráter reativo. É importante ressaltar que há uma estratégia alternativa à Defesa Ativa. Se a abordagem chinesa é reativa ao JAM-GC, uma alteração na de postura estadunidense tende a alterar o posicionamento da China. Por exemplo, diversos autores estadunidenses propõem um conceito competidor do JAM-GC, o Offshore Control (OC). Em linhas gerais, o OC representa a criação de capacidades A2/AD nos vizinhos chineses aliados dos Estados Unidos, e que daria a este a prerrogativa de “fiel da balança” da Ásia e diminuiria a necessidade de intervenção direta estadunidense em um confronto na região. Cumpre ressaltar que a adoção do Offshore Control reduz a necessidade dos Estados Unidos manter Taiwan separada do Continente chinês como “porta-aviões” inafundável. Assim, dirime-se a lógica de preempção que está se tornando regra na visão estratégica da China e dos Estados Unidos atualmente. Conclui-se que a China não apresentou o comportamento de uma potência revisionista do Sistema Internacional. Até hoje, o país apenas buscou assegurar o cumprimento de objetivos políticos que salvaguardam a sustentação de sua ordem político-institucional, dentre elas a reunificação nacional, o que envolve Taiwan diretamente.

De maneira análoga, a Defesa Ativa resgata a situação vivida pelo Japão na década de 1930. Nesse período, apesar de ter sido um dos países que arquitetaram o sistema de governança internacional do período entre guerras, o Japão adotou uma doutrina ofensiva e o expansionismo militar. Isso ocorreu, em parte, devido à incapacidade das instituições vigentes em responder aos desafios impostos ao desenvolvimento japonês pela Crise de 1929, cenário semelhante ao vivido pelo Sistema Internacional hodierno. A percepção que recorrer à ofensiva pode ser a única forma de alcançar os objetivos regionais tende a colocar China e Estados Unidos em rota de colisão em Taiwan.

Cada uma das seções procura demonstrar como a questão de Taiwan pode ser considerada parte determinante do perfil da abordagem chinesa em resposta às novas conjunturas. Assim, em cada um dos estudos de caso, busca-se apontar o processo que parte de um determinado contexto em que se insere a questão da reunificação nacional (ou seja, de Taiwan) e tem como consequência percepções e respostas específicas da China.

A Quarta Crise do Estreito

Todas as crises anteriores em Taiwan tiveram implicações importantes para a segurança regional. A Primeira Crise do Estreito de Taiwan, de 1954-1955, tinha o maior potencial de escalada. Envolveu intenso bombardeio de ilhas costeiras, ameaças nucleares por parte dos Estados Unidos e operações anfíbias bem-sucedidas do PLA, que levaram à tomada de várias pequenas ilhas. A Segunda Crise do Estreito de Taiwan, em 1958, envolveu tamanha bravata de Mao Tsé-Tung que até mesmo o líder soviético Nikita Khrushchev se mostrou indiferente, contribuindo para o abismo sino-soviético. A Terceira Crise do Estreito de Taiwan eclodiu da indignação chinesa com a visita do presidente taiwanês Lee Denghui aos Estados Unidos em 1995. Embora seu potencial de escalada fosse limitado, considerando o equilíbrio militar vigente no Estreito de Taiwan na época, suas implicações foram significativas: provocou um crescimento de dois dígitos no orçamento militar da China e levou o PLA a desenvolver doutrinas de negação de acesso e de área para ameaçar os porta-aviões americanos posicionados em futuros incidentes.

A Quarta Crise do Estreito de Taiwan foi um conflito curto entre a RPC e Taiwan, com a RPC realizando vários exercícios militares em grande escala que cercaram Taiwan. A China iniciou manobras militares em torno de Taiwan em 2 de agosto de 2022, antes de lançar seu primeiro grande exercício militar de 4 a 11 de agosto de 2022, realizado em resposta à visita da presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, a Taiwan. Os exercícios envolveram exercícios de tiro real , missões aéreas, desdobramentos navais e lançamentos de mísseis balísticos sobre Taiwan, marcando a maior escalada da China na região desde a Terceira Crise do Estreito de Taiwan em 1996.

É importante notar que a visita de Pelosi a Taipei não é inédita, visto que o então presidente da Câmara dos Representantes, Newt Gingrich, visitou Taiwan em 1997. Contudo, a julgar pelas zonas de exercícios militares anunciadas pela China em resposta à visita de Pelosi, Pequim demonstrou uma clara intenção de romper o antigo acordo tácito entre China, Taiwan e Estados Unidos a respeito de certas linhas vermelhas que não devem ser cruzadas pelas três partes. A intenção da China foi demonstrar às outras partes que o PLA agora é capaz de projetar força além de Taiwan, no Pacífico e nas águas da costa leste de Taiwan. Tal capacidade pode até mesmo servir ao propósito de bloquear Taiwan. À medida que a capacidade do PLA de atingir Taiwan melhora, Xi Jinping pode ter mais cartas na manga para negociar diplomaticamente com os Estados Unidos.
Analistas associaram a escalada dos exercícios militares durante esta crise à ascensão mais ampla da China como uma grande potência. À medida que a influência global da China cresceu ao longo da década de 2020, Pequim tornou-se cada vez mais disposta a afirmar seus interesses naquilo que considera seus interesses centrais, sendo Taiwan o principal deles. Os exercícios são amplamente interpretados como parte de um esforço de longo prazo da China para normalizar e sustentar as operações do PLA em torno de Taiwan, ao mesmo tempo que melhora a credibilidade das opções coercitivas que não chegam a uma guerra cinética. Além disso, tem-se dado crescente atenção a 2027, um ano frequentemente citado por analistas de defesa como um marco até o qual se espera que o PLA tenha desenvolvido todo o espectro de capacidades necessárias para um potencial bloqueio ou invasão de Taiwan. A inteligência dos EUA também observou que Xi Jinping ordenou ao PLA que se preparasse para uma possível tomada de Taiwan até 2027.

O exercício da China em agosto de 2022 perturbou a região e os exercícios militares desencadearam temores de uma potencial invasão de Taiwan em alguns cantos dos países ocidentais, particularmente à luz da invasão russa da Ucrânia em 2022 e da crescente expansão militar da China. Esse temor foi intensificado pela aproximação da "Janela de Davidson", apelido dado à potencial janela de oportunidade para a China, quando finalmente poderá realizar uma invasão de Taiwan. Esse termo foi cunhado após o Almirante Philip Davidson ter feito declarações em uma audiência no Congresso em 2021, nas quais afirmou que a China poderia tentar alcançar a "reunificação" com Taiwan em um cronograma acelerado, até 2027, ano do centenário do PLA, quando se espera que se torne uma força totalmente inteligente, capaz de realizar operações conjuntas combinadas. O general Mark Milley revelou que a crença de Davidson derivava de um discurso do secretário-geral do PCCh, Xi Jinping, no qual ele exortou o PLA a antecipar seu cronograma para o desenvolvimento das capacidades necessárias para invadir Taiwan de 2035 para 2027.

Se o cronograma estiver correto, podemos esperar alguma ação ano que vem, quando a janela de Davidson estiver encerrada. Até lá, só podemos especular sobre cronogramas e o período apropriado do PLA tomar a iniciativa e iniciar a invasão de Taiwan.

domingo, 31 de maio de 2026

A ameaça de guerra do século XXI entre China e Taiwan: Entendendo os desdobramentos estratégicos atuais da China e o papel da geografia no conflito - Parte 1

China x Taiwan: o conflito que pode mudar o mundo

Para iniciar esta série de artigos é importante destacar que o conflito (ou a competição) entre a RPC (China) e os Estados Unidos será um dos eventos definidores do século XXI, podendo ser equiparado, em termos de importância, à Primeira Guerra Mundial, à Segunda Guerra Mundial e/ou à Guerra Fria.

Observa-se uma significativa incompreensão em relação ao PLA/ELP (People's Liberation Army), o que contribui para a subestimação da capacidade militar chinesa no Pacífico. Uma análise criteriosa de documentos públicos sobre o ambiente operacional na região revela que a geografia do Pacífico representa uma vantagem estratégica determinante para a China, em detrimento dos Estados Unidos e de seus aliados regionais.

Antes de iniciarmos uma profunda análise sobre o assunto principal, teremos que abordar como a China chegou na sua atual situação geoestratégica e entendermos melhor o processo e desenvolvimento da geopolítica chinesa. Não voltando muito atrás do tempo, iniciaremos quando Mao assume o continente e expulsa os nacionalistas para Taiwan.

Existe uma conexão instintiva — embora não determinística — entre espaço (no sentido de território ou geografia) e poder, e inúmeros geógrafos, historiadores, cientistas políticos e filósofos têm tentado, ao longo dos anos, desvendar as leis que regem essa relação. Rudolf Kjellén, o cientista político, geógrafo e político sueco que cunhou o termo “geopolítica”, pretendia encontrar uma forma científica de analisar o comportamento internacional dos Estados. Ele procedeu a isso enfatizando “o caráter físico, o tamanho e a localização relativa do território do Estado como elementos centrais para sua posição de poder no sistema internacional”. 

Da mesma forma, Halford Mackinder, em sua seminal palestra de 1904, "O Pivô Geográfico da História", descreveu sua ambição de buscar uma "fórmula" que "tivesse um valor prático ao colocar em perspectiva algumas das forças concorrentes na política internacional atual". Para analistas políticos interessados ​​no poder — sua acumulação, expansão e contração — a geopolítica pode fornecer insights, ou no mínimo uma estrutura sistemática útil para ajudar a pensar sobre direções estratégicas específicas no mapa mundial. 

Durante a maior parte dos anos desde a fundação da República Popular da China (1949), a geopolítica como disciplina acadêmica foi proibida no país. Mesmo assim, os estrategistas chineses jamais deixaram de pensar em termos geopolíticos. Ao final da Guerra Fria, tanto especialistas do governo quanto acadêmicos buscaram avaliar as implicações das mudanças no cenário das grandes potências que ocorreram após o colapso da União Soviética para a segurança nacional. O poder explicativo da geopolítica mostrou-se útil para compreender a lógica estratégica da hegemonia americana e extrair lições para o futuro. À medida que a ascensão da China se tornou o assunto do momento em meados dos anos 2000, a geopolítica também forneceu uma  estrutura conveniente para testar geoestratégias adequadas à iminente posição da China como uma grande potência no cenário mundial.

Os círculos intelectuais e estratégicos chineses, preocupados em alcançar a “ascensão pacífica” e o “grande rejuvenescimento” de sua nação no contexto de uma competição acirrada entre grandes potências, parecem candidatos ideais para explorar as relações espaciais e seus efeitos sobre a “fortuna nacional” e as tribulações das grandes potências.

A geopolítica com "características" chinesas

Alguns estudiosos associam o “nascimento da consciência geopolítica da China” a Mao Tsé-Tung. Liu Xiaofeng remonta isso à menção de Mao, em agosto de 1946, sobre a existência de uma vasta zona separando os Estados Unidos da União Soviética, que Liu afirma, sem maiores explicações além da “sabedoria geopolítica superior de Mao”, ser o “exatamente o oposto” da teoria da orla de Nicholas Spykman. Sem julgar se seu pensamento é “superior” ou não, Mao ocupa um lugar especial na geopolítica moderna chinesa. Já em 1938, quando a China estava em meio à guerra contra o Japão e as forças chinesas estavam “estrategicamente cercadas” pelo inimigo, o líder do Partido Comunista foi capaz de enxergar além do campo de batalha militar imediato e apreender a política internacional mais ampla que se desenrolava em um tabuleiro de xadrez global.

Em outras palavras, Mao idealizou uma estratégia global de contra-cerco que acabou se assemelhando a uma estratégia de contenção. O cerco e o contracerco, as linhas internas e externas, os esforços para conter a expansão das potências imperialistas e outras configurações geopolíticas permaneceram temas importantes no pensamento estratégico de Mao muito depois do fim da guerra contra o Japão imperial. Em uma reunião em fevereiro de 1973 com Henry Kissinger e Winston Lord em Zhongnanhai, Mao mencionou a necessidade de “traçar uma linha horizontal” através dos Estados Unidos, Japão, Paquistão, Irã, Turquia e Europa, que desempenharia um papel restritivo na expansão do imperialismo soviético. 

O professor Wang Jisi, da Universidade de Pequim, descreve essa “linha única” (yi tiao xian) como o primeiro conceito geoestratégico da China na era moderna, um conceito que suplantou a divisão bipolar predominante da Guerra Fria em campos oriental e ocidental, porque previa o alinhamento temporário da China, tecnicamente uma potência do “Oriente”, com uma grande potência ocidental, a fim de derrotar a União Soviética (na época, considerada a principal ameaça à sobrevivência da China).

Na época em que cortejava os dois conselheiros de segurança nacional dos EUA, Mao já incluía os Estados Unidos no mesmo campo hegemônico desprezado que a União Soviética estava há mais de uma década. No início de 1974, ele explicou ao presidente zambiano Kenneth Kaunda que as duas superpotências poderiam ser derrotadas se a China e o resto do mundo em desenvolvimento criassem uma frente unida internacional. Na verdade, o mundo estava dividido em três campos: os Estados Unidos e a União Soviética (buscadores de hegemonia e “maiores exploradores internacionais”) estavam no primeiro; Japão, Europa, Austrália e Canadá (em vários estágios entre os campos de opressores dos países em desenvolvimento e países oprimidos pela intimidação das superpotências) estavam no segundo; e África, América Latina e Ásia, incluindo a China e outras nações oprimidas na vanguarda da luta contra as superpotências, estavam no terceiro. A chamada Teoria dos Três Mundos de Mao foi oficialmente apresentada ao mundo por Deng Xiaoping durante seu discurso nas Nações Unidas em 1974.

Ao longo de 35 anos, o principal objetivo de Mao foi resistir às potências cuja expansão representava uma ameaça existencial ao espaço estratégico da China. Desde o enfrentamento do imperialismo japonês no final da década de 1930 e na década de 1940, passando pela estratégia de contenção dos EUA a partir da década de 1950 e, após a cisão sino-soviética da década de 1960, pelo “social-imperialismo” de Moscou, o pensamento geopolítico de Mao foi guiado pela necessidade premente de libertar a China da agressão e do cerco externo. Embora as “linhas” e as “vastas áreas” continentais que ele idealizou como baluartes contra o imperialismo nunca tenham se concretizado, ainda merecem ser consideradas, tanto como expressões do pensamento geopolítico chinês quanto como potenciais protótipos para futuras configurações geoestratégicas da China.

Juntamente com a Europa e os Estados Unidos, a China é uma das três principais placas políticas e econômicas mundiais que possuem suas próprias “vantagens geofísicas, profundidade estratégica e vastos 'espaços habitáveis'”. Sua localização geográfica, a leste da Eurásia e a oeste do Oceano Pacífico, permite que a China ocupe uma “posição dominante na placa geográfica asiática” e se destaque como o “centro natural” da Ásia. Sua topografia excepcional, vasto território, amplo espaço para manobras, recursos abundantes, grande população, “povo capaz de suportar dificuldades e trabalhar duro, e inúmeros heróis”, bem como seu “espírito nacional que ousa prevalecer”, fazem da China não apenas o centro de gravidade da Ásia, mas também o alvo da inveja de outras potências. A China é como “um pedaço de carne gorda”, disse Mao certa vez, “todo mundo quer dar uma mordida”.

A Eurásia é o principal trampolim para a hegemonia mundial. A Eurásia tem sido e continuará sendo a região central da competição entre as grandes potências. Influenciados por teorias geopolíticas, os Estados Unidos jamais abandonaram sua grande estratégia de controle da Eurásia. Seja por meio da contenção soviética no passado ou, mais recentemente, pela estratégia do Indo-Pacífico, a hegemonia americana tem perseguido o mesmo conjunto de objetivos: preservar sua dominância global e impedir o surgimento de uma potência rival no continente eurasiático, inclusive por meio do uso de seu sistema de alianças militares.

A contenção da China pelos EUA é inevitável, porque sua ascensão ameaça a hegemonia americana, sobretudo no continente eurasiático. Seria “de uma ingenuidade risível” pensar que esta tendência começou em 2008 apenas “porque alguém declarou que a China está a ficar mais forte”. Em vez disso, o Departamento de Defesa americano já havia identificado no final da década de 1980 a ascensão da China como o maior desafio futuro para os Estados Unidos, superando a ameaça representada pela União Soviética. A Revisão Quadrienal de Defesa de 2001 deixou claro que os Estados Unidos iriam restringir ativamente o espaço estratégico da China, algo que começaram a fazer após a Guerra Fria, expandindo seu “cerco geoestratégico ao ambiente marítimo da China” e fortalecendo suas “âncoras Norte e Sul” (sua aliança com o Japão, a Coreia do Sul e a Austrália).

Mapeando o Espaço Estratégico da China

O perímetro da China moderna revela os resultados de séculos de conflito e ameaça, a afirmação da autoridade central e, portanto, explica a razão pela qual a China é tão inflexível em manter suas regiões de influência sob controle. As ameaças vindas do nordeste incluíram a Manchúria e a Península Coreana, fontes de invasão de populações nativas e distantes. Os manchus invadiram a China no século XVII, estabelecendo o Império Qing, embora, no final, tenham sido em grande parte assimilados à cultura chinesa. A Península Coreana serviu como rota para a fracassada invasão japonesa da China no final do século XVI e como rota para o retorno do Japão ao continente asiático no final do século XIX.

Se a Manchúria foi em grande parte assimilada, o mesmo não se pode dizer da Coreia, graças ao seu terreno mais acidentado, e o apoio contínuo de Pequim à Coreia do Norte reflete a antiga preocupação de que a Península Coreana possa servir como cabeça de ponte para uma invasão do núcleo Han.

Seguindo para oeste, encontram-se as vastas estepes mongóis, fonte de inúmeras incursões no coração da China, mas principalmente da invasão mongol do século XIII e do estabelecimento da Dinastia Yuan na China. Assim como os manchus posteriores, a liderança mongol também iniciou um processo de assimilação à cultura e à estrutura política dos chineses han durante seu domínio. Os vários trechos da Grande Muralha da China foram construídos ao longo da fronteira imprecisa entre os cavaleiros nômades do norte e nordeste e as planícies e campos agrícolas do núcleo chinês. Talvez não seja coincidência que a Grande Muralha também seja paralela, em parte, à isoieta de 15 polegadas; a muralha foi uma barreira para reforçar o que a geografia já havia criado. 

A China assimilou a Mongólia Interior às suas fronteiras atuais, mas a própria Mongólia esteve durante anos sob domínio soviético e serviu como zona tampão entre os chineses e os soviéticos. A China ainda busca exercer influência na Mongólia para impedir que potências estrangeiras ganhem uma presença muito forte na região.

A noroeste fica Xinjiang, rota da antiga Rota da Seda, que passava de oásis em oásis através de desertos e planícies varridas pelo vento. A cultura e o caráter religioso de Xinjiang são uma extensão da Ásia Central turca e marcam o limite nordeste da influência islâmica. Hoje, Xinjiang é uma das regiões-tampão mais instáveis da China. A China moderna busca aproveitar ao máximo os vastos recursos naturais da região e revitalizar antigas rotas comerciais para acessar recursos e mercados na Ásia Central, no Oriente Médio e na Europa. Xinjiang oferece proteção estratégica contra a interferência estrangeira, mas também representa um desafio potencial à unidade chinesa. Os soviéticos exploraram brevemente as diferenças étnicas e religiosas de Xinjiang em relação ao núcleo chinês como forma de moldar as relações com a China. Hoje, Pequim mantém um controle rígido sobre a região para enfraquecer qualquer nacionalismo ou sectarismo religioso emergente que possa desafiar as fronteiras políticas da China moderna.

Ao sul de Xinjiang ergue-se o imenso Planalto Tibetano, muito maior que o Tibete atual. A China só buscou dominar diretamente o planalto tibetano relativamente há pouco tempo, e não concluiu essa tarefa até o século XX. O Tibete era uma fonte frequente de atrito para as rotas da Rota da Seda chinesa, pois era muito mais fácil para os tibetanos descerem e realizarem incursões do que para a China subir e controlá-los. O Tibete não é apenas uma fortaleza natural, mas também a nascente dos principais rios da China (assim como dos rios de muitos de seus vizinhos). Em termos modernos, o Tibete é frequentemente um peão na competição estratégica entre a China e a Índia. O Himalaia oferece uma forte barreira entre o subcontinente indiano e a China moderna, mas se o Tibete conquistasse a independência ou se aliasse à Índia, poderia ameaçar novamente o coração da China.

Além do Tibete, ao sul e a leste do núcleo Han, elevam-se as montanhas do Sudeste Asiático, cortadas por vales fluviais que correm de norte a sul. A geografia do Sudeste Asiático facilitou a movimentação de povos no sentido norte-sul, mas restringiu a expansão do poder para leste e oeste. Assim, o Sudeste Asiático como um todo permaneceu amplamente fragmentado. As regiões fronteiriças entre a China e seus vizinhos do sul podem apresentar linhas claras nos mapas, mas a realidade física e cultural sugere um desvanecimento muito mais gradual entre os dois lados da fronteira do que demarcações nítidas. É para o sul que os impérios chineses buscaram sua maior expansão além do núcleo, em direção a Mianmar, mas particularmente no Vietnã. Essas incursões frequentemente terminaram em derrota para a grande potência, dada a tirania do terreno e da distância. As relações modernas da China com o Sudeste Asiático continental permanecem complexas, uma combinação de cooperação e competição, comércio e desconfiança.

A leste, encontra-se os mares da China Meridional, da China Oriental e Amarelo, domínios marítimos que facilitam o comércio costeiro e, em certa medida, o comércio marítimo, mas que, na antiguidade, serviam principalmente como uma zona tampão, e não como uma rota de interação. Não que a China não pudesse desenvolver uma cultura marítima, mas sim que simplesmente não precisava. A China foi, durante muito tempo, em grande parte autossuficiente em recursos e o comércio com vizinhos distantes era mais voltado para o consumo de luxos do que para necessidades básicas. As costas chinesas apesarem de oferecer amplo espaço para pesca e comércio locais, a pirataria marítima externa era motivo de preocupação, e a solução encontrada pela China foi, muitas vezes, tratar a costa como uma muralha (dependendo, por exemplo, de canais no interior, no sentido norte-sul, para o comércio). As frotas de tesouros de Zheng He, alardeadas como o Colombo chinês e prova da tradição marítima do país, eram consideradas extravagâncias e as frotas eram incendiadas quando surgiam novos problemas internos. A ascensão do imperialismo ocidental reforçou a vulnerabilidade da China às ameaças marítimas, mas as crises internas minaram a capacidade da China de repelir os avanços europeus.

Moldando o espaço estratégico em torno da China

As relações históricas da China com as regiões tampão não se baseavam no conceito absoluto de Estado-nação do Ocidente, mas sim em diferentes camadas de controle ou influência, que se alteravam ao longo do tempo de acordo com a força nacional e a percepção de ameaças. Cada dinastia chinesa unificada, da Han à Qing, buscava a expansão territorial em busca de recursos e proteção. Impérios distintos enfrentavam prioridades diferentes — os Han, por exemplo, concentravam-se nas ameaças vindas do oeste e do norte, enquanto os Ming preocupavam-se com o norte e o nordeste. Mas a China antiga se deparava com um paradoxo perene: a região tampão era mais segura quando o núcleo Han menos precisava de sua proteção, e mais vulnerável quando um núcleo Han enfraquecido mais precisava da proteção da região tampão.

Nas regiões de amortecimento, as sucessivas dinastias chinesas buscaram a assimilação ou a mera cooperação, dependendo das condições vigentes. A gestão dessas áreas de amortecimento situava-se entre a política interna e a externa das dinastias chinesas, visto que estas eram simultaneamente semi-integradas e semiautônomas. Frequentemente, a China optava pelo controle negativo em vez do controle positivo, mais custoso. A distância, o terreno e a baixa densidade populacional tornavam o controle formal sobre as terras de amortecimento dispendioso e complexo. Em vez disso, a China enfatizou tanto a prevenção da ameaça dessas áreas ou populações ao núcleo Han quanto a sua assimilação.

As políticas da China em relação aos reinos fora das regiões de amortecimento tendiam, portanto, para o controle negativo em vez do controle positivo. Isso é semelhante à estratégia adotada pela Rússia moderna, que busca moldar as relações com seus vizinhos (em oposição ao controle total, mais custoso, como durante a Guerra Fria), e, de certa forma, à maneira como o império americano foi construído. Embora os sucessivos impérios chineses claramente buscassem expandir seu território, muitas vezes preferiam se basear na afirmação de autoridade sobre os reinos vizinhos, em um sistema tributário e no reconhecimento nominal da autoridade central da China. Administrar o vasto território central chinês já era suficientemente difícil sem adicionar as complicações do controle, ou mesmo da influência, sobre as regiões de amortecimento. A expansão para além dessas regiões raramente era uma opção e, quando tentada, frequentemente terminava em desastre, seja por recursos sobrecarregados ou, mais frequentemente, por rebeliões e conflitos internos.

A China é difícil de invadir devido ao seu tamanho, geografia e população. É ainda mais difícil ocupá-la, algo que as potências imperiais ocidentais e os japoneses constataram, assim como os bem-sucedidos invasores mongóis e manchus, que eventualmente foram em grande parte assimilados. Isso também torna difícil para os chineses invadirem outros países — não impossível, mas certamente difícil. Com as zonas de amortecimento estabelecidas, as relações com os vizinhos em grande parte administradas e amplos recursos internos, a China poderia viver em esplêndido isolamento, interagindo por escolha e não por necessidade. Mas as mudanças na Europa, a expansão global dos impérios e o caminho moderno rumo a um maior comércio e interação global trouxeram mudanças significativas para a China. A China não pode mais permanecer isolada dentro de seu espaço protegido, mesmo que quisesse.

Os imperativos estratégicos da RPC

Quando observamos a China, e em particular o núcleo da etnia Han, vemos quatro imperativos sucessivos:

1. Manter a unidade interna no núcleo Han.

2. Manter influência ou controle sobre as regiões de amortecimento.

3. Proteger a costa da invasão estrangeira.

4. Garantir e proteger as rotas comerciais internacionais, os recursos e os mercados.

Cada um com prioridades diferentes ao longo do tempo. O quarto imperativo reflete a posição atual da China na era moderna e raramente surgiu na história chinesa.

1. Manter a unidade interna no núcleo Han.

A China é mais isolada do que qualquer outra grande potência. O tamanho de sua população, aliado às suas fronteiras seguras e à relativa abundância de recursos, permitiu que ela se desenvolvesse com mínima interação com o resto do mundo, caso assim o desejasse. Assim como ocorreu com o desenvolvimento dos Estados Unidos séculos depois, o isolamento era um privilégio, não uma restrição. A capacidade da China de suprir a maior parte de suas necessidades em seu próprio território e de se isolar de ameaças externas permitiu que ela se desenvolvesse com um foco predominantemente interno. Mesmo a projeção do poder imperial chinês era impulsionada mais pela prevenção de desafios externos do que pela aquisição de recursos essenciais. O comércio e as relações internacionais existiam e, por vezes, prosperavam, mas eram menos uma necessidade e mais um luxo.

A fragilidade da China residia (e talvez continue a residir) na diversidade interna de sua geografia, história, atividade econômica e regionalismo. O núcleo étnico Han aparenta ser amplamente unificado, mas, em sua essência, é extremamente complexo e fragmentado. A China apresenta divisões entre norte e sul, litoral e interior, centro e periferia, áreas rurais e urbanas e, cada vez mais, divisões entre ricos e pobres. Equilibrar essas diferenças exige uma atuação habilidosa no centro. E, com a atual desaceleração econômica da China, esse equilíbrio torna-se cada vez mais difícil.

A dimensão da China levou a um padrão histórico de expansão e contração, baseado mais frequentemente em crises internas do que em ameaças externas, embora, como em qualquer lugar, crises internas graves possam abrir caminho para a entrada de atores externos. Para gerir a diversidade, a dispersão geográfica e o isolamento do núcleo Han, é necessário um governo central forte, mas também uma burocracia extensa para garantir a obediência ao centro. Repetidamente, a burocracia tem se tornado mais dominante do que o distante núcleo político. A gestão da diversidade de questões e interesses locais recai sobre a burocracia local, e a lacuna entre a autoridade central e os desafios locais é evidente.

A expansão da burocracia e a ordem centralizada, por sua vez, criam imensos interesses burocráticos, ampliam as divisões sociais e fomentam o descontentamento popular. Isso muitas vezes exigiu reformas de cima para baixo, ratificação burocrática e consolidação do poder para revitalizar os governos imperiais. Mas, em alguns casos, acabou desencadeando golpes de Estado, a ascensão do regionalismo e de senhores da guerra, bem como revoltas rurais, um fator importante que contribuiu para a queda de dinastias. Esses atritos internos acabam por significar que o centro tem dificuldades para controlar o núcleo Han, e surgem desafiantes internos ou externos, descentralizando o poder e repetindo o ciclo.

Na era moderna, para que a China prospere, ela também precisa se engajar no comércio internacional. Desentendimentos entre regiões e autoridades durante o século XIX, à medida que as potências europeias forçavam mais concessões da China, levaram a políticas conflitantes, contradições internas e vastas disparidades de riqueza. Desde o final da década de 1970 e a reforma e abertura de Deng Xiaoping, a China testemunhou um aumento massivo no comércio internacional e na conectividade, mas construído sobre um sistema maoísta de redundância interna — quase todas as províncias e cidades produziam aço, por exemplo, como forma de garantir que não houvesse um centro de gravidade fácil para uma potência estrangeira atacar — o crescimento foi rápido, mas longe de ser distribuído de forma equitativa e ineficiências inerentes abundavam.

Pequim enfrenta hoje o desafio de gerir as políticas econômicas nacionais, mesmo com a resistência ou ignorância dos interesses locais em relação às diretrizes centrais. As regiões costeiras foram as mais beneficiadas. A classe média chinesa pode chegar a mais de 400 milhões de pessoas, a maioria concentrada numa estreita faixa de províncias ao longo da fronteira marítima. Os restantes 900 milhões de chineses, embora tenham obtido ganhos significativos nos últimos 30 anos, permanecem muito atrás dos seus compatriotas das regiões costeiras e dos grandes centros urbanos. A mudança na estrutura econômica global pôs fim às taxas de crescimento de dois dígitos da China e à promessa de que todos enriqueceriam, apenas alguns mais rapidamente do que outros. A reconsolidação do poder central atual reflete as preocupações do regionalismo e a memória das revoluções modernas que surgiram no interior rural da China.

2. Manter influência ou controle sobre as regiões de amortecimento.

Um dos desafios enfrentados historicamente pela civilização Han, agrícola e sedentária, foi o fato de estar cercada ao norte e oeste por tribos nômades, com fronteiras e populações instáveis nas montanhas e florestas densas ao sul. Para assegurar o núcleo Han, a China historicamente lutou e ocasionalmente foi derrotada por seus vizinhos (particularmente as poderosas tribos nômades do norte). Para gerenciar sua posição regional, a China estabeleceu uma política do Reino do Meio, na qual mantinha os vizinhos à distância com uma política paralela de integração e acomodação para as regiões tampão próximas, enquanto empregava um sistema tributário nominal para lidar com seus vizinhos um pouco mais distantes. Quando aplicada de forma eficaz, essa política exigia um gasto mínimo de recursos ou força militar para manter uma posição central relativamente segura. Mas também oferecia apenas uma influência ou controle real mínimo sobre os vizinhos.

Como ao longo de sua história, as fronteiras da China sofreram constantes flutuações. Mas foi o período maoísta que, em grande parte, moldou as fronteiras contemporâneas e o cenário geopolítico da China. O enfraquecimento interno da Dinastia Qing nos séculos XVIII e XIX proporcionou amplas oportunidades para a exploração imperial da China pela Europa e, posteriormente, pelo Japão. Com a derrota japonesa em 1945, a China se viu envolvida em uma guerra civil que opôs nacionalistas a comunistas. A Manchúria retornou ao controle chinês, mas a Mongólia Exterior estava sob controle soviético, e a influência soviética se espalhava para a Mongólia Interior e Xinjiang. Mesmo enquanto Mao lutava contra os nacionalistas, ele também se preparava para retomar as regiões-tampão do norte; ele estava tão preocupado com a expansão soviética pelo norte e oeste quanto com a antiga expansão europeia pela costa.

Mao começou a consolidar o controle comunista chinês sobre a Manchúria e a Mongólia Interior, expulsando os soviéticos. Xinjiang, por sua vez, estava sob o domínio dos soviéticos.

O controle de sucessivos senhores da guerra regionais, de Yang Zengxin a Sheng Shicai, foi crucial. Logo após o fim da guerra civil, Mao agiu para eliminar ou cooptar os senhores da guerra locais e assumir o controle de Xinjiang. Finalmente, em 1950, Mao avançou contra o Tibete, conquistando-o em 1951. A rápida consolidação das regiões-tampão proporcionou a Mao o que todos os imperadores chineses almejavam: uma China segura contra invasões.

A resposta da China ao início da Guerra da Coreia em 1950 reforçou a importância das regiões de amortecimento para a segurança de Pequim e serviu como um lembrete da posição histórica da Coreia como um potencial ponto de partida para incursões estrangeiras na China. A periferia da China foi testada na década de 1950, quando os Estados Unidos apoiaram secretamente levantes no Tibete; no final da década de 1960, em escaramuças de fronteira com os soviéticos ao longo do rio Ussuri; e no final da década de 1970, com a expansão do Vietnã para o oeste.

A China moderna integrou formalmente as regiões tampão, que se estendem da Manchúria, no nordeste, passando pela Mongólia Interior, Xinjiang e Tibete, até Yunnan e ao longo das montanhas no sul. Esses territórios proporcionam profundidade estratégica, mas trazem seus próprios desafios na forma de relações étnicas internas e coesão — algo talvez menos significativo no passado, quando essas terras existiam no espaço indefinido entre a política interna e externa. Conflitos étnicos, nacionalistas e sectários, bem como insurgências, continuam em Xinjiang e, em menor escala, no Tibete, e conflitos localizados de menor escala surgem ocasionalmente em outras regiões tampão étnicas.

Um dos maiores temores de Pequim em relação às regiões tampão decorre da maneira como a China as assimilou ao país. Ao contrário dos soviéticos, que realocaram grupos étnicos não russos para evitar a contiguidade étnica além das fronteiras, a China transferiu chineses han para as regiões tampão, diluindo gradualmente as populações locais. A China ainda teme a disseminação de movimentos pan-turcos pela Ásia Central em direção a Xinjiang; grandes populações étnicas tibetanas organizadas na Índia; pastores da Mongólia Interior que potencialmente buscam a reunificação com a Mongólia; e coreanos étnicos em outras regiões estabelecendo laços com uma futura Coreia unificada; e numerosos grupos étnicos minoritários e até mesmo militantes se deslocando ao longo das fronteiras do Sudeste Asiático.

3. Proteger a costa da invasão estrangeira.

Durante grande parte da história da China, o país foi em grande parte autossuficiente em recursos naturais. Quaisquer recursos ou artigos de luxo adicionais de que necessitasse podiam ser fornecidos pelas rotas da Rota da Seda para o oeste, ou por meio de comércio em pequena escala com os vizinhos. A partir do século XII, a costa foi frequentemente assolada pela pirataria e sofreu ocasionais ataques internacionais, mas, dada a sua vasta extensão interior e a sua diversidade étnica, a China raramente se concentrou no poder naval. Não que a China fosse incapaz de desenvolver poder marítimo, mas sim que como potência continental, a China tinha poucos incentivos para isso: as ameaças tradicionalmente vinham dos nômades do norte e noroeste, e seu sistema agrícola sedentário simplesmente não precisava buscar recursos ou novas terras no exterior, e sua população podia consumir seus excedentes, eliminando a necessidade de mercados distantes. O mar era visto como uma zona de amortecimento, não como uma ponte.

Até a intervenção europeia, a ameaça física à China raramente vinha do litoral. Mas o século XIX trouxe novos e significativos desafios para a China através do mar. As potências europeias pressionaram por concessões, tomaram portos e navegaram pelos rios chineses. O Japão invadiu o país pelo mar, destruindo grande parte da nascente marinha chinesa no processo.

A partilha das cidades costeiras e ribeirinhas chinesas entre as potências imperiais revelou-se um problema ainda mais grave.

A ameaça à China era maior do que o risco geral de a China ser conquistada pelo mar. Mesmo o Japão, com todo o peso de seus recursos imperiais emergentes, foi incapaz de conquistar a China. Mas, com o fim da Segunda Guerra Mundial e da guerra civil chinesa, as cidade-estado permaneceram em mãos estrangeiras em Hong Kong e Macau, e a crescente conexão com o comércio marítimo, ainda que em seus estágios iniciais, criou vulnerabilidades potenciais para a China. A mais óbvia é a possível interrupção do comércio chinês ou restrições ao acesso a recursos por potências estrangeiras.

A segunda vulnerabilidade não é menos significativa. Dado o regionalismo e as divisões já evidentes na China, cidades e regiões costeiras podem ver seus interesses locais divergirem dos do interior, e até mesmo dos do Estado como um todo, quando começam a compartilhar os interesses de centros cosmopolitas estrangeiros. E ideias, informações e desafios aos padrões estabelecidos podem ter efeitos disruptivos; considere o primeiro imperativo estratégico da China. O esforço constante da China moderna para conter regiões poderosas como Xangai e Guangdong, o ciclo perene de consolidação burocrática e industrial e as suspeitas de penetração econômica e intervenção política por potências estrangeiras — observadas em suas atuais políticas de linha dura em relação a Hong Kong — refletem isso.

4. Garantir e proteger as rotas comerciais internacionais, os recursos e os mercados.

Os três primeiros imperativos permaneceram por muito tempo o núcleo da estratégia nacional e internacional da China. Mas os imperativos não são inteiramente estáticos e, por vezes, mudanças na conjuntura global, na atividade econômica, na tecnologia, em conflitos ou em pressões externas e internas podem adicionar ou alterar um imperativo. O rápido crescimento econômico da China no final do século XX e início do século XXI criou um novo imperativo, que levou a China de uma condição de quase autossuficiência para uma situação de vulnerabilidade à intervenção internacional.

O sucesso econômico da China quebrou sua autossuficiência. Agora, o país importa pelo menos a mesma quantidade de suas principais commodities industriais que produz. O comércio exterior é uma peça vital da atividade econômica chinesa, mesmo enquanto o país tenta direcionar sua economia para um modelo de consumo interno. Os investimentos no exterior proporcionam acesso não apenas a mercados e recursos, mas também a tecnologia e habilidades. Isso obrigou a China a buscar maneiras de garantir suas vulneráveis cadeias de suprimentos, expandir sua presença marítima e ampliar sua influência financeira e política internacional.

A China não deve mais encarar o mar como uma zona de amortecimento, mas sim como uma ponte — uma ponte que deve permanecer aberta e acessível. Até que as implicações dessa nova dependência marítima fossem completamente compreendidas, a resposta da China foi começar a criar uma capacidade marítima que dissuadisse a intervenção estrangeira. Construir uma presença naval global completa e abrangente é dispendioso, demorado e, sobretudo, exige décadas de treinamento. Concentrar-se no desenvolvimento de mísseis antinavio é menos dispendioso em termos de recursos e tempo. Mas a questão para Pequim era mais do que impedir que uma potência estrangeira bloqueasse seus portos; tratava-se da proteção das linhas de abastecimento.

Considerando o domínio atual dos EUA sobre os oceanos do mundo, a China tinha três opções:

1. Aceitar a presença e a boa vontade dos EUA.

2. Buscar rotas comerciais alternativas ou redundantes para reduzir vulnerabilidades em pontos únicos.

3. Investir no desenvolvimento de uma capacidade naval global.

Em períodos de poder marítimo unipolar, muitos países simplesmente aceitam e adaptam suas políticas à realidade. Não seria incomum que um país, mesmo um dependente de rotas comerciais externas, avaliasse o custo de caminhos alternativos como superior ao risco para seus interesses nacionais. O simples fato de os Estados Unidos poderem interromper o comércio marítimo chinês não significa que os Estados Unidos tenham qualquer intenção de fazê-lo ou a vontade de fazê-lo. Mas, à medida que o poder chinês cresce, o país é cada vez mais visto como um concorrente estratégico direto dos Estados Unidos. Presumir que os Estados Unidos não usariam seu poder tornou-se um risco muito grande para a China.

Em vez disso, Pequim tem buscado uma combinação de estratégias: a expansão de rotas comerciais alternativas e redundantes para limitar pontos únicos de falha e ganhar tempo, enquanto constrói uma capacidade militar marítima mais robusta. Da perspectiva da China, no mínimo, ela precisa garantir seu próprio espaço dentro dos mares do Leste e do Sul da China, e impedir ou dissuadir potências estrangeiras (principalmente os Estados Unidos) de manter um forte círculo de aliados ao redor da periferia desses mares. No centro da insegurança da China está Taiwan. Essa ilha é o proverbial porta-aviões inafundável que, se em mãos estrangeiras, pode desafiar a segurança regional da China e cortar seu acesso marítimo norte-sul, mas, se de volta às mãos chinesas, fornece um forte promontório no coração dos mares contidos. À medida que a China continua a afirmar sua posição nos mares circundantes, a atenção sobre Taiwan aumentará, assim como os esforços para incentivar a reunificação, seja ela pacífica ou não.

O desenvolvimento naval da China, seus avanços em mísseis antinavio, a assertiva recuperação de ilhas e recifes no que considera seu território no Mar do Sul da China e seu envolvimento em operações antipirataria no Golfo de Aden, entre muitos outros, fazem parte da construção de uma capacidade naval mais robusta.

A China está testando seu terceiro porta-aviões e já é capaz de realizar operações aéreas complexas. Mas participar de exercícios e treinamentos em condições controladas é muito diferente de operar em uma situação de crise. A China não tem ninguém para ensiná-la operações de grupos de batalha de porta-aviões; tem muito poucos veteranos navais que possam treinar a próxima geração de marinheiros. As marinhas são construídas sobre algo mais do que cascos de aço; são construídas sobre treinamento e tradição. Na Guerra Sino-Japonesa, quando tanto o Japão quanto a China estavam construindo e treinando frotas de estilo ocidental, a adoção da tradição naval britânica pelo Japão deu ao país uma vantagem sobre a marinha chinesa, talvez melhor armada, que havia adotado o treinamento e a tradição naval alemã, que, no fim das contas, se mostrou menos eficaz. A verdadeira construção naval é um processo longo e, embora a experiência de outros possa acelerá-lo, nada substitui a experiência prática, embora isso possa ser muito relativo.

A iniciativa chinesa da Rota da Seda, agora expandida para a iniciativa mais abrangente "Um Cinturão, Uma Rota", que combina rotas terrestres e marítimas com o desenvolvimento de portos chineses em todo o mundo, faz parte da estratégia para diversificar as rotas comerciais. Mesmo que muitas das rotas individualmente não sejam lucrativas, o conjunto proporciona uma força que pode superar o custo de construção e manutenção. "Um Cinturão, Uma Rota" não se trata apenas de rotas e acesso a mercados; trata-se de expandir as relações comerciais para integrar mais países a um sistema chinês e, assim, aumentar o custo para os Estados Unidos ou outra potência que tente interferir nessas rotas.

Fonte: https://www.stratfor.com/sites/default/files/geopolitics-of-china-stratfor-report.pdf

A geografia como fator determinante no conflito RPC-EUA

A geografia seria o elemento central na configuração de um eventual conflito. A maior parte do Teatro de Operações (TO) é composta por massas d'água, e esse ambiente impõe condicionantes significativos sobre como as forças podem ser concentradas e distribuídas. Diferentemente da Guerra Fria contra a União Soviética — quando a OTAN conseguia reunir grandes contingentes continentais na Europa para conter o avanço soviético —, um cenário análogo é inviável contra a China. A extensão continental chinesa, associada aos vastos espaços marítimos do Pacífico, impede que forças americanas e aliadas se concentrem em volume suficiente para conter o PLA sem ficarem expostas a ataques de mísseis e aeronaves chinesas.

À medida que a China atinge a paridade de capacidades militares, a vantagem geográfica entre a China e os EUA não é apenas significativa, mas tende a ser decisiva. E em um contexto de sistemas em rede onde a ênfase na estrutura de força gira em torno de multiplicadores de força, as vantagens dos multiplicadores favorecem fortemente o poder local sobre o poder projetado para frente, tudo o mais mantido igual, porque qualquer multiplicador que o poder projetado para frente alcance com um conjunto de sistemas, um poder local que atinge as mesmas capacidades se beneficiaria do mesmo multiplicador, mas amplificaria fatores de base muito maiores (em coisas como intensidade de fogo, taxas de surtidas, etc).

As vantagens geográficas que a RPC detém em contraste com as desvantagens geográficas e de estrutura de força que os americanos é um fator enorme e é uma das preocupações mais prementes que Washington analisa. Mesmo apenas o problema de sustentação por si só prejudica severamente a capacidade de operar formações de superfície na RPC - e a falta de base essencialmente condena o poder aéreo americano a ser uma força "conteste", em oposição a uma força "dominante" (terminologia boba, mas essas são as palavras que o DoD gosta de usar). Se as mesmas forças fossem colocadas em um contexto europeu, o cálculo mudaria quase inteiramente.

A Nova Grande Muralha da China: Rússia

Uma vez Mackinder afirmou: "Quem governa a Ilha Mundial comanda o mundo". Sob essa perspectiva, se a Rússia se tornar instável, nada no Pacífico Ocidental terá relevância estratégica. Em termos de equilíbrio geopolítico entre Estados Unidos e China, o Pacífico Ocidental constitui um ponto de pivô relativo, enquanto a Rússia representa o ponto de pivô absoluto para a China.

Apesar dos rumores deliberados sobre um suposto interesse chinês na Sibéria e no extremo leste russo, não há evidências concretas de que a posição oficial do governo chinês seja, de fato, rever as fronteiras com a Rússia, ainda que o país tenha perdido vastos territórios durante o período conhecido como Século da Humilhação. E a evidência é novamente analisando a perspectiva geográfica chinesa e confirmar que isso não passa de um rumor infundado.

Para a China, a Rússia é a prioridade máxima, sobretudo em razão da geografia. A Rússia está para a China assim como o Canadá está para os Estados Unidos — com uma diferença fundamental: a Rússia protege a China por três lados, enquanto o Canadá protege os EUA por apenas um.

Embora o flanco norte seja o mais evidente, é importante observar que a Rússia também garante a segurança da Ásia Central para a China e, ao mesmo tempo, nega o acesso dos EUA à infraestrutura terrestre na costa do Pacífico. Isso força os Estados Unidos a dependerem da Primeira (1ª CI) e Segunda Cadeias de Ilhas (2ª CI), bem como dos países aliados para projetar poder na região.


A incorporação do Tibete pela China proporcionou a Pequim novas oportunidades para lidar com a Índia, permitindo que o país adotasse, ao que tudo indica, uma postura de defesa estratégica nessa direção. Essa orientação defensiva decorre da necessidade de concentrar recursos em outros teatros de operações prioritários, como o Oriental e o Meridional. Por isso a perspectiva de revisionismo geográfico com a Rússia não faz sentido, os chineses absorvendo todo o leste russo, terão que criar toda uma infraestrutura econômica e militar de suporte para consolidar o território russo capturado, o que em si não faz sentido quando se quer priorizar uma única direção estratégica. Tal situação de revisionismo só faria sentido em um momento de colapso do estado russo, mas isso é o que Pequim quer evitar a todo custo, considerando os esforços chineses de assistência financeira e econômica aos russos.

A queda da Rússia não interessa para a China. São economias complementares e essa complementaridade será ainda mais acentuada pela dinâmica da economia global em transição. A China emergiria como uma superpotência, sendo o centro dessa nova economia global, assim como os EUA emergiram após a Segunda Guerra Mundial. Usando o tabuleiro de xadrez, a China agora está em uma posição de espera, enquanto apoia o centro do tabuleiro, o centro desse tabuleiro é quem contesta a ordem internacional vigente: Rússia. A China não pode permitir que a potência contestadora seja derrotada, por isso o aprofundamento das relações entre Moscou-Pequim.

A imagem acima ilustra o núcleo Han, representado pela área em vermelho, que corresponde à porção central da China, onde se concentra a maior parte da densa população chinesa. A área em roxo, por sua vez, indica as regiões de Xinjiang, Tibete e Mongólia Interior. Esses territórios funcionam como uma zona de proteção geográfica e áreas de afastamento fronteiriço em relação a potenciais oponentes adjacentes — o que, na terminologia clássica, se denomina "zona tampão".

A China é uma ilha. Não no sentido de estar rodeada de água por todos os lados, mas no sentido de ser o que chamaremos de núcleo Han, cercado por terreno acidentado, criando uma zona de amortecimento entre o núcleo e as populações circundantes. O núcleo étnico Han estende-se de Shaanxi e da Bacia de Sichuan, a oeste, até Hebei e Guangdong, a leste, abrangendo os dois grandes rios que cortam a China de leste a oeste, o Amarelo e o Yangtzé. Este núcleo é circundado por montanhas acidentadas a nordeste e montanhas exuberantes ao sul, pelos vastos desertos e planícies de Gobi e Taclamacã ao norte e oeste, e pelo Planalto Tibetano a sudoeste, adjacente ao Himalaia. Este anel de montanhas, desertos, selvas e planaltos, além do mar a leste, forma uma espécie de escudo ao redor do núcleo Han, protegendo e isolando a China de seus vizinhos simultaneamente.

Um exemplo histórico dessa função pode ser observado durante a cisão sino-soviética, nas décadas de 1960 e 1970, quando a Mongólia Interior atuou como uma eficiente zona tampão. Na ocasião, a maior parte das unidades terrestres do PLA foi concentrada nessa região para conter a massa militar soviética.

A imagem abaixo apresenta o contexto geográfico atual, no qual Rússia, Irã, Paquistão e Coreia do Norte oferecem uma zona de proteção contra potenciais oponentes e interventores, caso a China decida iniciar hostilidades em relação a Taiwan.


Observe como a Rússia oferece uma zona tampão por três lados, enquanto o Irã proporciona uma zona de proteção que fecha o cerco na Ásia Central, dificultando que adversários exteriores posicionem ativos e unidades que ameacem o território chinês. 

Nesse contexto, a Índia acaba por representar a única ameaça credível à China. No entanto, dado o fardo visível que o Paquistão — aliado da China — representa, podendo explorar vulnerabilidades indianas em caso de confronto entre os dois, a Índia não tem condições de travar uma guerra em duas frentes. Por essa razão, qualquer possibilidade da Índia iniciar um conflito com a China é nula.

Isso oferece à China a oportunidade de economizar recursos e manter meios defensivos em camadas contra a Índia por meio do Tibete e do Comando de Teatro Ocidental, enquanto prioriza todos os demais recursos estratégicos contra os aliados de Taiwan no Pacífico Ocidental. É possível ler mais sobre a postura de defesa chinesa em Aksai Chin nesse link e averiguar a amplitude dessa postura defensiva do PLA contra a Índia na região.

Nos próximos artigos veremos como o Pacífico pode ser um ambiente hostil para a presença militar americana por causa do fardo logístico e operacional de ir combater a China em seu próprio quintal. Enquanto isso, vimos nesse artigo como a geografia pode ser decisiva para o sucesso da China, principalmente por causa das zonas tampões que cobrem a China de três lados, enquanto mantém Pequim preocupado com apenas uma única direção: o leste - a costa oceânica e se tornando o quarto imperativo para a China superar.


A ameaça de guerra do século XXI entre China e Taiwan: A conturbada relação no Estreito e o impacto na conjuntura sino-americana - Parte 2

Taiwan como o centro de atenção na política externa chinesa Os atritos entre China e Taiwan têm raízes profundas e se mostram como uma das q...