segunda-feira, 29 de junho de 2026

A ameaça de guerra do século XXI entre China e Taiwan: A conturbada relação no Estreito e o impacto na conjuntura sino-americana - Parte 2

Taiwan como o centro de atenção na política externa chinesa

Os atritos entre China e Taiwan têm raízes profundas e se mostram como uma das questões mais complexas no cenário mundial contemporâneo. Tais raízes devem-se ao fato de que a ilha foi governada pela China há séculos, porém foi ocupada pelos japoneses de 1895 a 1945, e, após a Segunda Guerra Mundial, Taiwan foi novamente devolvida à China. Contudo, após o governo do Partido Nacionalista Chinês (Kuomintang - KMT) perder a Guerra Civil Chinesa para o Partido Comunista Chinês (PCCh), membros do KMT se exilaram e estabeleceram um governo na ilha de Taiwan e, desde então, aquela localidade tem demandado uma gestão governamental independente em relação à China, que nunca a reconheceu como uma nação autônoma.

Nos últimos anos a situação entre China e Taiwan tem se deteriorado, visto que a China tem aumentado a pressão diplomática sob Taiwan, realizado inúmeros exercícios militares perto da ilha e, inclusive, lançando mísseis próximos à região, com o agravante dos Estados Unidos reprovarem as ações chinesas e estarem frequentemente enviando navios militares e realizando exercícios naquela região, além da frequente visita de políticos americanos à referida ilha nos últimos anos.

A China considera Taiwan como uma província rebelde e que, portanto, deve ser reunificada. Tal posição é baseada na doutrina de “Uma China”, que afirma que Taiwan é uma província chinesa. Porém Taiwan tem se mantido independente da China desde 1949 e ignorado os pedidos chineses, também ancorada pelo fato de que grande parte da população de Taiwan é a favor da independência da ilha. A política internacional de defesa de Taiwan sofre influência de vários fatores, dentre os quais podemos destacar: o poderio militar chinês, a interdependência dos Estados Unidos e China, o grande desenvolvimento de Taiwan e as divergentes opiniões sobre os atritos entre a ilha e a China.

A presença dos Estados Unidos no Mar da China serve como uma forma de dissuasão para que o país não tome Taiwan à força, além do que os Estados Unidos têm se usado de uma "ambiguidade estratégica" em relação à situação, isto porque o governo estadunidense não deixa explicito em momento algum que defenderia a ilha caso a China optasse por uma invasão. Porém, os Estados Unidos têm mantido uma forte presença militar na região, o que gera dúvidas na China se os norte-americanos iriam interferir ou não em um possível conflito. Assim como a OTAN tem feito com a Ucrânia, os Estados Unidos têm fornecido treinamento militar e armas para Taiwan. Porém, a presença estadunidense no Mar da China não pode ser vista apenas como uma dissuasão, pois tal fato pode resultar em implicações de grande vulto para todas as partes envolvidas, sejam elas os Estados Unidos, a China ou Taiwan.

Quando um forte animal, como um leão, por exemplo, tenta capturar um porco-espinho, ele se depara com um animal muito menor e mais fraco, que não aparenta ser agressivo. Porém, este leão se vê de frente com um animal cheio de espinhos, com uma capacidade de defesa avassaladora, e quanto mais forte e agressivo for a força agressora contra este porco-espinho, mais danos o agressor sofrerá, o que irá incorrer em feridas dolorosas e uma provável desistência desse animal em capturá-lo.

Usando-se do mesmo princípio de um “porco-espinho” em repelir um agressor muito mais forte, Taiwan há décadas se prepara para uma possível tentativa de invasão chinesa e, para tal, investe pesado em armamentos para aumentar sua defesa, como, por exemplo: mísseis terra-ar, armas antinavios e minas navais. O fato de Taiwan ser uma ilha a beneficia muito, tendo em vista a dificuldade e complexidade de um desembarque anfíbio, que é considerada a manobra militar mais complexa. Esta tem se mostrado uma estratégia poderosa para dissuadir a China em iniciar uma guerra assimétrica, mesmo que o gigante asiático tenha uma explícita superioridade militar e tecnológica.

Estima-se que uma tentativa de desembarque anfíbio por conta da China pode resultar em uma perda de 60% dos meios empregados. Tal estratégia defensiva tem por base a dissuasão, a resiliência, a capacidade de negar à China o acesso às terras de Taiwan e a complexidade da operação na mais complexa e adversa manobra militar conhecida, que seria um desembarque anfíbio em Taiwan, localizada no Mar da China com uma distância compreendida pelo Estreito de Taiwan, que tem 180 km de largura no ponto mais estreito. Diante da contextualização acima, esta parte tem por objetivo compreender as tensões entre China e Taiwan.

O passado

O conflito China-Taiwan é um dos pontos mais sensíveis da história recente da região do Mar Sul da China. Taiwan, ou República da China, já havia sido colonizada por Portugal no século 16 e pelos holandeses no século 17, esteve sob domínio japonês de 1895 até o fim da segunda Guerra Mundial, quando forças antagônicas, comunistas e membros do Kuamintang, disputaram o poder na China durante a Guerra Civil e consideraram que a ilha era parte do território chinês. Porém, quando os nacionalistas liderados por Chiang Kai-Shek perderam a Guerra Civil e fugiram para Taiwan em 1949, afirmavam que a República da China era governante de direito de todo o país, estando sediada em Taipei. Para os comunistas que triunfaram na disputa, após recuperarem o controle de Macau e Hong Kong, Taiwan simboliza o último estágio da Guerra Civil e o passo final da restauração da integridade territorial do gigante asiático, abalada desde meados do século 19, quando se iniciou o chamado “século de humilhações”.

O “século de humilhações” é o período entre 1842 e 1949 em que a China saiu perdedora em diversas guerras tendo parte de sua soberania solapada nos “tratados desiguais” iniciados ao final da primeira guerra do ópio travada com a Inglaterra entre 1839-1842. Os comunistas consideram que esse período de degradação nacional se encerra com sua chegada ao poder em 1949, liderados por Mao Tsé Tung, após a guerra civil travada com o Kuomintang.

Em termos de segurança nacional, os líderes chineses consideram a localização de Taiwan perigosa para estar sob a influência de uma potencia rival, devido a sua proximidade com a China continental e seu potencial estratégico da região. Nesse contexto, a relação EUA e Taiwan se fortaleceu durante a guerra fria, quando Washigton passou a instaurar bases na ilha, fortalencendo assim o governo taiwanês. A ameaça à soberania de Pequim na região foi o fator motivacional para que o PCC invistisse cada vez mais em suas forças armadas.

Para a China Taiwan representa a ultima etapa na superação do que e conhecido como “século da humilhação”. Período entre o final do século 19 e início do século 20. Em termos de segurança nacional, os líderes chineses consideram a localização de Taiwan perigosa para estar sob influencia da maior potencia mundial. Os japoneses, durante seu domínio, costumavam chamar a ilha de “porta aviões inafundável”. Os norte americanos, durante a Guerra Fria também utilizaram bases na ilha, com o consentimento dos nacionalistas do Kuamintang.

A relação dos EUA com a China tornou-se muito estreita com a chegada do Kuomintang ao poder e especialmente a partir da ascensão do Presidente Chiang Kai-Shek, um cristão convertido com fortes influências ocidentais representando o sucesso diplomático de Washington, que desde o final do século 19 enviara missões diplomáticas para a China na tentativa de molda-la à imagem do ocidente. O ataque à Perl Harbor, na Segunda Guerra Mundial, naturalmente colocou China e Estados Unidos como aliados frente ao Império Japonês.

Não obstante, quando o Kuomintang foi derrotado pelos comunistas na China continental e fugiu para a Ilha de Taiwan, foi natural que esse bom relacionamento entre os nacionalistas chineses e os Estados Unidos permanecesse. No entando, o Departamento de Estado norte americano, no começo de 1950, determinou que apesar da preocupação com a possibilidade das forças nacionalistas sediadas em Taiwan serem invadidas pelos comunistas chineses, não estava militarmente em posição de intervir. O que logo veio a ser revisto com a eclosão da Guerra da Coréia.

A agressão da Coreia do Norte representava o expansionismo das forças comunistas, forçando o EUA a fortalecer os laços com seus aliados asiáticos. Esse estágio inicial da Guerra Fria culminou com o tratado de aliança com a República da China, sediada em Taiwan, em 1954, incorporando a ilha ao sistema de segurança coletivo sob o comando dos EUA no leste da Ásia.
Lockheed F-104A Starfighter do 83º Esquadrão de Caça Interceptador na Base Aérea de Taoyuan, Taiwan, em 15 de setembro de 1958, durante a Crise de Quemoy
A partir de então, Taiwan se torna um parceiro estratégico vital do ocidente na política de contenção do comunismo internacional, abrigando bases aéreas norte americanas. Com o arrefecimento da Guerra Fria e a aproximação diplomática dos EUA com a China, a ilha taiwanesa começa a perder o seu protagonismo como aliado estratégico para os Estados Unidos, levando ao fim, em 1979, o tratado de defesa mútua entre os Estados Unidos e Taiwan por exigência de Pequim.

O congresso americano, preocupado com a continuidade do compromisso de segurança norte americano firmado com Taiwan, e temendo avanços da China comunista sobre a ilha, aprova o "Taiwan Relations Act" em 10 de abril de 1979. O ato demonstra a seriedade que Casa Branca encara o compromisso com Taiwan, mas é ambíguo em termos de qual seria a resposta no caso de uma agressão chinesa. As relações norte americanas com Taiwan passam a ser não mais pelas vias diplomáticas tradicionais, tornando-se um raro caso em que Washington estabelece relações de defesa com outro ente estatal através de uma organização privada, o The American Institute in Taiwan, que na prática era responsável pelos intercambios comerciais, culturais e de defesa.

Nos anos 1980, estava claro que a parceria Washington – Taipei não era mais calcada na contenção do comunismo, tratava-se principalmente de um vínculo de compromisso com um antigo aliado, até que mudanças internas em Taipei e novas preocupações com Pequim reacendem o interesse norte americano pela ilha.

Com a promulgação da Lei Antissecessão de 2005, os artigos 8 e 9 da lei estipulam que caso as possibilidades de reunificação pacífica sejam exauridas, a China tem a possibilidade de fazer uso de coerção visando proteger sua integridade territorial e soberania através de meios que minimizem os efeitos de vindouras incursões militares.

O ingresso na guerra na Península Coreana

A participação chinesa se deu, em grande parte, frente à possibilidade de se envolver em uma guerra em duas frentes, devido ao interesse manifesto de Chiang Kai-shek em enviar tropas da Ilha de Taiwan para a Península Coreana. Para os EUA, a Guerra trouxe a necessidade de se estabilizar a situação no Estreito para focar esforços na Península. Logo após a eclosão do conflito coreano, o presidente Truman ordena o envio da Sétima Frota dos EUA para o Estreito de Taiwan, estabelecendo-se um impasse na Guerra Civil. No início daquele ano, Truman havia declarado que, apesar dos EUA reconhecerem o governo do Guomindang (Kuomintang, KMT) como único governo da China, as Forças Armadas americanas não interfeririam em um confronto entre comunistas e nacionalistas. A neutralização do Estreito é visto pelos chineses como interferência direta em seus assuntos internos. Essa rivalidade estratégica é aprofundada ainda mais pelo General MacArthur, quando esse afirmou ainda que ‘arranjos foram concluídos para uma coordenação eficaz entre as forças americanas sob o meu comando e as forças do governo chinês’.

Isso deu a entender que tropas nacionalistas chinesas estavam prestes a serem introduzidas na luta coreana. Como mais tarde ficaria patente, em suas declarações de uso do arsenal atômico contra a China seguido de invasão terrestre, MacArthur buscava preparar a derrocada do comunismo na Ásia através de iniciativa ofensiva. A abertura de uma frente de batalha na Península Coreana era do interesse de Chiang Kai-shek, tendo em vista sua proximidade à Manchúria, região estratégica chinesa e local onde se iniciou sua derrota para os comunistas após a Longa Marcha de Mao Zedong (Mao Tsé-Tung). O líder do KMT dava declarações que iam ao encontro das de MacArthur.

A possibilidade de envio de tropas nacionalistas na Península é análoga à experiência chinesa nas Guerras Sino-Japonesas. O Tratado de Shimonoseki (1895), deu soberania ao Japão sobre a Ilha de Formosa; e fez a China abdicar de sua influência sobre a Coreia, processo que se concluiu em 1910 com a anexação japonesa da Península. A criação do Estado fantoche de Manchukuo (1932), na Manchúria, pelo Império Japonês, sucedeu a invasão da região, o que se tornou possível pela sua presença na Coreia. Durante a Segunda Guerra Mundial, os bombardeios aéreos iniciais sobre Xangai (1937) e Chongqing (1938) partiram de bases em Formosa e ajudaram no avanço japonês sobre o continente.

As interpretações mais tradicionais acerca da decisão chinesa em entrar na Guerra apontam principalmente para o internacionalismo comunista e para a lógica da segurança nacional como motivadoras principais. Na análise aqui proposta, busca-se trazer a questão de Taiwan, e consequentemente da reunificação nacional, como fator implícito na decisão chinesa. A possibilidade de se verem envolvidos em uma nova guerra em duas frentes pode ser percebida como um fator importante para a decisão dos comunistas chineses em entrar na Guerra, mesmo sem apoio soviético. Na sessão de reuniões no dia 13 de outubro a cúpula do Partido decidiu o envio de tropas, mesmo sem apoio aéreo.

A preocupação chinesa estava calcada em considerações estratégicas, não ideológicas. Além disso, a intenção de estabelecer um impasse para se permitir um retorno à diplomacia, enquanto se prepara para a continuação do combate caso esta falhe, é condizente com o momento estratégico vivido pela China. Assim, em 19 de outubro, os chineses entram na Coreia para que a correlação de forças novamente se alterasse, permitindo novo avanço das tropas comunistas, mais dois anos de intensos conflitos, e o retorno da fronteira para o Paralelo 38.

As primeiras Crises dos Estreitos

Durante a década de 1950, o Estreito de Taiwan foi o palco de novas tensões. Os enfrentamentos, ocorridos respectivamente em 1954-55 e 1958, vieram a ser chamados de Primeira e Segunda Crise do Estreito. Em 1954, a frota americana se posicionou no Estreito como forma de evitar uma confrontação direta. Nesse episódio que o então Presidente dos EUA, Eisenhower, declarou que não descartaria a utilização da bomba atômica em um possível conflito na região. Em 1957, foi então instalado o sistema de mísseis MGM-1 “Matador” na Ilha (868º Esquadrão de Mísseis Táticos em Tainan), que poderia levar ogivas nucleares para o continente.

A primeira crise iniciou-se em agosto de 1954, quando Jiang Jieshi determinou o envio de 73 mil homens para as ilhas de Jinmen e Mazu, que ficaram sob o controle do governo de Taipei. Em reação, Zhou Enlai afirmou que Taiwan deveria ser libertada. Os EUA passaram a pressionar os comunistas a não atacar as forças de Jiang Jieshi e enviaram a Sétima Frota para o Estreito de Taiwan. A partir de setembro, o governo comunista passou a bombardear Jinmen e Mazu, e posteriormente Dachen e Yinjiangshan, na costa de Zhejiang. A presidência dos EUA afirmou, então, que armas nucleares poderiam ser utilizadas “como se fossem balas”. Diante da ameaça e do não apoio soviético, Zhou Enlai anunciou a disposição de negociar. Apesar disso, as forças continentais conseguiram tomar as ilhas de Dachen (Batalha do Arquipélago de Dachen) e Yijiangshan (Batalha das Ilhas Yijiangshan).

Após a Primeira Crise, o governo de Chiang Kai-shek reforçou seus efetivos em Jinmen e Mazu e passou a incursionar em território chinês, por meios aéreos e terrestres. Em 1957, os EUA despacharam para Taiwan seu 868º Esquadrão Missil Tático, portando unidades do sistema “MGM-1 Matador” com capacidade de entregar ogivas nucleares. O “Matador” representava uma alternativa barata de espalhar radiação no território continental da China, visto que utilizava mísseis superfície-superfície – e não balísticos. Seu alcance, cerca de 1.000 km, tornava-o capaz de atingir grandes cidades chinesas. A possibilidade — mesmo que não comprovada — de que o Guomindang (KMT) pudesse acionar independentemente as bombas tornou-se um fator agravante nos cálculos chineses. Assim, em julho de 1958, Mao Zedong decidiu bombardear novamente Jinmen e Mazu, utilizando como justificativa o apoio à luta contra a intervenção “imperialista” estadunidense no Líbano pelos árabes.

Diante da ameaça nuclear estadunidense, a China buscou o apoio soviético. A União Soviética (URSS) manteve sua política de “Coexistência Pacífica” com os EUA e não se mostrou disposta a defender a China em um conflito nuclear por Taiwan. Os chineses tiveram de recuar e constataram que não poderiam contar com o guarda-chuva nuclear soviético. Somadas, a recusa de Moscou em transmitir tecnologia para o desenvolvimento do programa nuclear militar chinês e a falta de apoio à China na Segunda Crise do Estreito de Taiwan, provocaram o deterioramento das relações sino-soviéticas, que levou à ruptura em 1961.

A incapacidade chinesa em resistir à chantagem nuclear dos EUA produziu um intenso debate na cúpula do PCCh. Os defensores da criação de um programa nuclear militar próprio venceram o debate, alegando a necessidade urgente de reduzir a diferença tecnológica com os EUA. O resultado prático foi o surgimento, ainda em 1958, do Grande Salto Adiante. Este programa priorizava o desenvolvimento da indústria pesada, particularmente aumentar a produção de ferro e aço, por meio do incremento da industrialização rural. A industrialização rural também buscou descentralizar a produção industrial, o que a tornava menos vulnerável no caso do país sofrer ataques nucleares. Apesar de um início com bons resultados, problemas derivados principalmente do controle de metas e indicadores levaram ao fracasso do programa e um saldo de mortos estimado entre 16 e 27 milhões, por fome e trabalhos forçados.

Reatamento Sino-Estadunidense e Diplomacia Triangular

A Diplomacia Triangular de Nixon consistiu na aproximação com a RPC (China), em detrimento de Taipei, de modo a balancear a URSS. Um dos pontos centrais dessa aproximação era a garantia estadunidense de que a resolução do problema da unificação nacional seria de prerrogativa exclusivamente chinesa. Após o rompimento com a URSS, a China entrou em uma fase de progressivo isolamento internacional, consonante com a progressiva radicalização ideológica interna, que culminou na Revolução Cultural. Assim, ao final dos anos 1960, a China estava cercada por um ambiente internacional hostil. Além das tensões crescentes com ambas as superpotências, permanecia o impasse com o regime de Chiang Kai-shek.

Diante desse quadro, a China passou a reformular sua Política Externa e de Segurança. A cúpula chinesa percebeu que a URSS tornara-se o seu rival mais perigoso e que, no caso de um conflito, os EUA não poderiam apenas assistir “a luta dos dois tigres”, principalmente com a possibilidade de uma vitória soviética. Dessa forma, a melhor alternativa seria, nesse caso, promover os contatos diplomáticos com os EUA. O então Assessor de Segurança Nacional dos EUA, Henry Kissinger, escreveria mais tarde que a aproximação criaria o “triângulo estratégico de Nixon”, como modo de balancear a URSS. A visita de Nixon à China, em 1972, teve como resultado o Comunicado Conjunto, marcando o reconhecimento diplomático da República Popular da China pelos EUA; a existência de uma única China; e o reconhecimento de que a questão de Taiwan era um assunto interno chinês.

O reatamento entre China e EUA mudou repentinamente o papel de Taiwan no cenário internacional. O regime liderado por Chiang Kai-shek perdeu o assento que tinha na ONU para o governo comunista. Em 1979, quando foram estabelecidas oficialmente as relações diplomáticas entre a República Popular da China e os EUA, os EUA abandonaram as relações oficiais com o regime liderado pelo KMT, reconhecendo o princípio de “Uma China”. Essa inflexão teve reflexos regionais, em que o Japão reconhece o princípio de “Uma China”, e firma, com a RPC, a Cláusula AntiHegemônica (Comunicado Conjunto de 1972). As relações entre Taiwan e EUA continuaram a existir, porém por vias extraoficiais. Também em 1979, o Congresso estadunidense criou o Ato de Relações com Taiwan, que criava mecanismos para a manutenção de contatos com a Ilha por ações executivas, sem força de lei. Entre estes mecanismos, estava o Instituto Americano em Taiwan e a permanência do comércio de armas. Em 1982, a China e os EUA publicaram um comunicado em que os EUA comprometiam-se a diminuir progressivamente a venda de armas para a Ilha, sem que houvesse, todavia, um prazo definitivo para o seu término. Simultaneamente, os EUA deram “Seis Garantias” a Taipei, entre elas, a de não reconhecer formalmente a soberania da RPC sobre Taiwan. Paralelamente, as tensões interestreito arrefeceram durante a década de 1980 devido à aliança estratégica forjada entre RPC e EUA, tendo em vista a contenção da URSS. Assim, da mesma forma que vendia armas a Taipei, houve a criação do programa “Pérola da Paz”, segundo o qual os EUA promoveram massiva transferência de tecnologia na área de eletrônica embarcada para o caça J-8II.

O continente continuou buscando reintegrar Taiwan, não mais pela confrontação militar, mas pela combinação entre integração econômica e arranjo político-institucional. Do ponto de vista econômico, houve a criação das Zonas Econômicas Especiais (ZEE), entre elas Xiamen, o que poderia ser considerado um incentivo para que empresários taiwaneses investissem no continente. Do ponto de vista político e institucional, a Constituição de 1982 instituía o “Um País, Dois Sistemas” que propunha a criação de “Regiões Administrativas Especiais”, que manteriam seus sistemas político e social, cedendo ao governo de Pequim a soberania sobre política externa e defesa. Em Taiwan, viria a ocorrer a abertura política e o fim da lei marcial em 1987, e, simultaneamente, a ascensão de figuras nativas, dentre os quais o futuro presidente Lee Teng-Hui.

O fim da Guerra Fria e a Terceira Crise do Estreito

O fim da bipolaridade no Sistema Internacional entre EUA e URSS afeta profundamente a interação China-EUA e tem impacto direto na questão de Taiwan. A percepção chinesa de enfraquecimento de sua posição estratégica pode ser depreendida de dois eventos: os “Protestos da Praça de Tiananmen” e a Terceira Crise dos Estreito. O primeiro demonstra o fim do consenso criado a partir da diplomacia triangular de Nixon e as fraquezas político-diplomáticas da RPC. O segundo alerta para o atraso do Exército de Libertação Popular (PLA/ELP) da China e o progressivo distanciamento da RPC de completar a reunificação nacional, o seu principal objetivo desde a segunda conflagração sino-japonesa. Este alerta decorre da intervenção estadunidense durante a Crise, mesmo após as garantias feitas na década de 1970. Este foi um dos principais fatores que, segundo a maioria dos analistas, levou a RPC a atualizar sua estratégia e perfil de forças.

No Leste Asiático pode-se utilizar como evento-marco para o fim da Guerra Fria os “Protestos da Praça de Tiananmen”, ocorridos em meados de 1989. Em reação, os EUA lideraram, em nome da democracia e dos direitos humanos, a constituição de um embargo econômico conjuntamente com seus aliados. Esse evento demonstrou à China que seria necessário um reposicionamento de sua política externa e uma reformulação de seu pensamento estratégico. Um retorno à região, fundando um novo momento de integração regional e uma reestruturação de seu desenvolvimento econômico, agora voltado para o desenvolvimento interno. Dessa forma, testemunhou-se a ascensão do “dragão chinês” e o distanciamento asiático das diretrizes ocidentais, abrindo caminho para diversas inciativas de integração, como o ASEAN+3, a Comunidade do Leste Asiático, o RCEP e a nova Rota da Seda.

Contudo, ainda restava readequar a estratégia chinesa no âmbito militar. O evento que impulsionou este processo foi a Terceira Crise do Estreito, visto que ele evidenciou ao mundo as fraquezas do PLA. A crise tem, como contexto, o fato de que Taiwan considerava o Japão, seu maior parceiro comercial na Ásia, um importante aliado, e o próprio Presidente Lee Teng-hui chegou a declarar que o Japão defenderia a ilha no evento da declaração da Independência de Taiwan. Conjuntamente com o Japão, o
governo de Lee Teng-hui pretendia se utilizar do reposicionamento estratégico estadunidense para promover a independência taiwanesa, erodindo o fundamento principal das relações sino-estadunidenses: o princípio de uma só China. Dessa forma, a Terceira Crise do Estreito eclode no biênio 95-96, com a viagem do então líder taiwanês Lee Teng-Hui para os EUA, e pela autorização do governo deste país em lhe conceder visto de entrada. A ação representava, para alguns dentro da política chinesa, a institucionalização da separação entre a Ilha e o Continente sob os olhos estadunidenses. Em 1995, o PLA realizou testes de mísseis próximos a Taiwan e conduziu exercícios navais que simulavam assaltos anfíbios; os EUA reagiram enviando dois Carrier Strike Groups (CSGs) para a proximidade do Estreito com o intuito de prevenir a invasão chinesa da Ilha, ocasionando o fim das tensões militares sem uma resolução política.

O resultado da crise traz uma nova consciência de situação à RPC no que tange suas capacidades militares. Com a chegada dos CSGs, a RPC soube das suas limitações reais, no caso da necessidade de intervir na Ilha de Taiwan, frente à capacidade de projeção de forças estadunidense. Não lhe seria possível alcançar uma simetria de capacidades com os EUA, necessária para invasão da Ilha. A RPC já vinha estarrecida de outra mostra de forças estadunidenses, isto é, a Guerra do Golfo de 1991. Além disso, percebe que nem a interdependência econômica é capaz de garantir alavancagem junto aos EUA para atingir seus objetivos de reunificação nacional. É nesse ponto que a China passa a buscar incorporar no desenvolvimento das suas Forças Armadas as respostas assimétricas que lhe garantam liberdade de ação em suas águas próximas, que mais tarde seriam conhecidas como táticas Anti-Acesso e de Negação de Área (A2/AD). O primeiro conceito significa impedir a chegada das forças estadunidenses à área em questão, e o segundo impedir-lhes que, uma vez acessada a área, seja-lhes possível atuar dentro dela. 

Igualmente, a China não podia mais confiar apenas na massa das suas forças convencionais e na parceria com os EUA para o confronto com a Rússia, sua principal ameaça terrestre, e necessitou desmobilizar o PLA de atividades econômicas e empreender um processo de reformulação doutrinária e de modernização. Quanto aos EUA, sua investida contra a China no início dos anos 1990 serviu apenas para precipitar o impulso de aproximação entre os países asiáticos. Conforme expôs Friedman, esse período foi de redefinição estratégica para os EUA, porém os estadunidenses carecem de uma grande estratégia definida até os dias de hoje, nem mesmo a Guerra ao Terror foi capaz de aglutinar o pensamento estratégico estadunidense gerando uma percepção clara de seus objetivos para o resto do mundo.

Até 1997 o debate em torno da percepção de ameaça em relação aos seus recursos de poder se manteve fechado dentro do partido, vindo a público a partir de duas publicações que discutiam, de ponto de vista opostos, a situação da política mundial. De um lado, Yang Dazhou criticava a visão ortodoxa do PCCh de que o mundo se encaminhava para a multipolaridade, afirmando que os Estados Unidos continuaria a ser o único polo de poder por pelo menos 30 anos. Em defesa da percepção multipolar, um artigo publicado pelo General Huang Zhengji, defendia a tese do declínio estadunidense e de que guerras locais seriam disseminadas nesse período de transição.

A partir dessa data o foco chinês passou a ser no regionalismo, interiorização do desenvolvimento e modernização militar. Em termos doutrinários, isso se traduziu na busca pela capacidade de travar e vencer guerras locais sob condições informatizadas. Frente ao que percebe serem seus objetivos estratégicos históricos, a China percebe a contingência de ter de incorrer em guerras locais para cumpri-los. Tendo em mente o que foi exposto na sessão anterior, ou seja, a possibilidade de ter de enfrentar os Estados Unidos para concluir sua reunificação nacional, o foco da modernização militar chinesa passa a ser a busca de uma resposta assimétrica a capacidade de projeção de força estadunidense. É assim que surgem os conceitos “Anti-Acesso” e de “Negação de Área” (A2/AD). O primeiro significa impedir a chegada das forças estadunidenses à área em questão, e o segundo impedir-lhes que, uma vez acessada a área, seja-lhes possível atuar dentro dela.

A RPC vem aumentando seus investimentos em tecnologia bélica, e o avanço e modernização de suas técnicas A2/AD já vem causando preocupação entre os formuladores de política e analistas de estudos estratégicos estadunidenses. Após o fim da Guerra Fria e a desmobilização global de seus contingentes, os EUA, para poder atuar nos pontos chave do globo, necessitam enviar e manter forças marítimas nas áreas litorâneas em grande escala para influenciar as operações em terra. É nesse contexto que se encaixa a importância dos porta-aviões. O desenvolvimento das técnicas A2/AD, entretanto, impossibilita realizar plenamente essa projeção. O estado da arte das capacidades A2/AD consiste na saturação das defesas dos CSGs através do uso de mísseis lançados de terra e de destróieres. Focando tais mísseis no porta-aviões que chefia o CSG, seria possível desabilitá-lo e negar, ou pelo menos reduzir drasticamente, a atuação estadunidense na área.

A partir da percepção de que poderia ter sua capacidade de projeção de força negada, desenvolve-se nos Estados Unidos o Conceito Conjunto para Acesso e Manobra nos Comuns Globais (JAM-GC). Chamada anteriormente de Batalha Aeronaval (AirSea Battle), foi atualizada no início de 2015 pela Instrução 3010.02D do Presidente do Estado­Maior Conjunto dos Estados Unidos, mas ainda mantém o objetivo original: estabelecer um conceito operacional conjunto para contrarrestar o desenvolvimento das técnicas A2/AD. Seu desenvolvimento se deu a partir da percepção de que a capacidade de projeção estadunidense que serve ao propósito de manter o Comando dos Comuns (mar, ar e espaço), ou seja, a própria hegemonia dos Estados Unidos no sistema internacional ­ estaria ameaçada pelo A2/AD. A essência do caráter preemptivo desse conceito está contido tática NIA­D318: consiste em um ataque em profundidade, ou seja, no território inimigo para além do teatro de operações, a fim de Desabilitar (comunicações/satélites), Destruir (radares e centros de lançamento de mísseis) e Derrotar. O ataque inicial seria feito por aeronaves de guerra eletrônica equipadas com mísseis antirradiação, apoiadas por navios de superfície e submarinos equipados com mísseis. O alvo das aeronaves seriam os sistemas de comunicações e radares do adversário, para “cegá-lo” e impedir a sua guiagem de munição. Nota­se que para desabilitar os sistemas do A2/AD adversário, o JAM­GC precisa golpear preemptivamente para garantir a liberdade de ação na zona contestada.

Ao observar na análise histórica, as inflexões estratégicas chinesas são, de forma recorrente, dotadas de caráter reativo. Nesse mesmo sentido é proposta a nova estratégia militar chinesa, a inovação trazida pelo documento fica por conta da revisão das Diretrizes Estratégicas de Defesa Ativa. O conceito da Defesa Ativa refere-se, em primeiro lugar, a unidade entre a defensiva estratégica e a ofensiva operacional e tática. Ou seja, mesmo que se busque um perfil defensivo no nível estratégico, podese tomar a ofensiva no nível das Operações ou da Tática.

É importante ressaltar o foco dado às questões navais, ao controle de grandes crises, lidar com reações em cadeia, e salvaguardar a soberania e integridade territorial. Todos esses pontos dizem respeito ao que, historicamente, se fez presente na questão de Taiwan. A tomada de iniciativa estratégica, também mencionada na nova Estratégia Militar, se coaduna com um contexto em que ascende o nacionalismo na Ilha e, para manter a defesa de sua soberania em um contexto de estratégia defensiva, pode-se tomar a ofensiva do ponto de vista operacional ou tático.

Pode-se perceber que a nova abordagem adotada concilia duas das escolas de pensamento estratégico majoritárias na China: a que vê a Guerra Local como tendência para os confrontos futuros, e a que vê a Guerra da Revolução nos Assuntos Militares como regra. Enquanto a primeira defende que os confrontos futuros serão circunscritos a um teatro limitado, com vizinhos periféricos, e próximo à fronteira do país; a segunda corrente afirma que terá armas avançadas, satélites para comunicações e reconhecimento, aviões furtivos, armas nucleares e nanotecnologia, e vê como adversários como Estados Unidos, Rússia e Japão. A terceira escola seria a Guerra Popular, de mobilização massiva, em moldes maoistas, não contemplada nos desenvolvimentos recentes em matéria militar, mesmo que a questão dos grandes contingentes e da conscrição tenha sido mantida.

Como visto ao longo dessa parte, Taiwan é uma das questões principais no relacionamento entre China e EUA. Os eventos envolvendo Taiwan foram responsáveis por grandes alterações na formulação da estratégia destes dois países. Mesmo que no período da Guerra da Coreia e das primeiras Crises do Estreito a China tenha necessitado se estruturar para fazer frente à chantagem nuclear e à defasagem tecnológica, enquanto ainda passava pelo processo de reconstrução da segunda guerra sino-japonesa e da guerra civil, os EUA consideravam a China parte de uma política única para a contenção do comunismo e da URSS, o que ampliava o valor estratégico da Ilha para os EUA. Somente com a diplomacia triangular de Nixon se tirou proveito das diferenças sino-soviéticas e a China pôde aproveitar o ambiente externo, enquanto Taiwan paulatinamente perdia apoio. Com o fim da Guerra Rria ocorre uma reorientação estratégica estadunidense, pondo fim à diplomacia triangular, o retorno da rivalidade sino-estadunidense, corporificada na Terceira Crise do Estreito. Esta crise foi responsável por uma total reformulação das políticas econômica, externa e de defesa da PRC. Como foi abordado, o foco chinês passou a ser o regionalismo e a modernização militar. Em termos doutrinários, isso se traduziu na busca pela capacidade de travar e vencer guerras locais sob condições informatizadas.

As inflexões estratégicas chinesas são, de forma recorrente, dotadas de caráter reativo. É importante ressaltar que há uma estratégia alternativa à Defesa Ativa. Se a abordagem chinesa é reativa ao JAM-GC, uma alteração na de postura estadunidense tende a alterar o posicionamento da China. Por exemplo, diversos autores estadunidenses propõem um conceito competidor do JAM-GC, o Offshore Control (OC). Em linhas gerais, o OC representa a criação de capacidades A2/AD nos vizinhos chineses aliados dos Estados Unidos, e que daria a este a prerrogativa de “fiel da balança” da Ásia e diminuiria a necessidade de intervenção direta estadunidense em um confronto na região. Cumpre ressaltar que a adoção do Offshore Control reduz a necessidade dos Estados Unidos manter Taiwan separada do Continente chinês como “porta-aviões” inafundável. Assim, dirime-se a lógica de preempção que está se tornando regra na visão estratégica da China e dos Estados Unidos atualmente. Conclui-se que a China não apresentou o comportamento de uma potência revisionista do Sistema Internacional. Até hoje, o país apenas buscou assegurar o cumprimento de objetivos políticos que salvaguardam a sustentação de sua ordem político-institucional, dentre elas a reunificação nacional, o que envolve Taiwan diretamente.

De maneira análoga, a Defesa Ativa resgata a situação vivida pelo Japão na década de 1930. Nesse período, apesar de ter sido um dos países que arquitetaram o sistema de governança internacional do período entre guerras, o Japão adotou uma doutrina ofensiva e o expansionismo militar. Isso ocorreu, em parte, devido à incapacidade das instituições vigentes em responder aos desafios impostos ao desenvolvimento japonês pela Crise de 1929, cenário semelhante ao vivido pelo Sistema Internacional hodierno. A percepção que recorrer à ofensiva pode ser a única forma de alcançar os objetivos regionais tende a colocar China e Estados Unidos em rota de colisão em Taiwan.

Cada uma das seções procura demonstrar como a questão de Taiwan pode ser considerada parte determinante do perfil da abordagem chinesa em resposta às novas conjunturas. Assim, em cada um dos estudos de caso, busca-se apontar o processo que parte de um determinado contexto em que se insere a questão da reunificação nacional (ou seja, de Taiwan) e tem como consequência percepções e respostas específicas da China.

A Quarta Crise do Estreito

Todas as crises anteriores em Taiwan tiveram implicações importantes para a segurança regional. A Primeira Crise do Estreito de Taiwan, de 1954-1955, tinha o maior potencial de escalada. Envolveu intenso bombardeio de ilhas costeiras, ameaças nucleares por parte dos Estados Unidos e operações anfíbias bem-sucedidas do PLA, que levaram à tomada de várias pequenas ilhas. A Segunda Crise do Estreito de Taiwan, em 1958, envolveu tamanha bravata de Mao Tsé-Tung que até mesmo o líder soviético Nikita Khrushchev se mostrou indiferente, contribuindo para o abismo sino-soviético. A Terceira Crise do Estreito de Taiwan eclodiu da indignação chinesa com a visita do presidente taiwanês Lee Denghui aos Estados Unidos em 1995. Embora seu potencial de escalada fosse limitado, considerando o equilíbrio militar vigente no Estreito de Taiwan na época, suas implicações foram significativas: provocou um crescimento de dois dígitos no orçamento militar da China e levou o PLA a desenvolver doutrinas de negação de acesso e de área para ameaçar os porta-aviões americanos posicionados em futuros incidentes.

A Quarta Crise do Estreito de Taiwan foi um conflito curto entre a RPC e Taiwan, com a RPC realizando vários exercícios militares em grande escala que cercaram Taiwan. A China iniciou manobras militares em torno de Taiwan em 2 de agosto de 2022, antes de lançar seu primeiro grande exercício militar de 4 a 11 de agosto de 2022, realizado em resposta à visita da presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, a Taiwan. Os exercícios envolveram exercícios de tiro real , missões aéreas, desdobramentos navais e lançamentos de mísseis balísticos sobre Taiwan, marcando a maior escalada da China na região desde a Terceira Crise do Estreito de Taiwan em 1996.

É importante notar que a visita de Pelosi a Taipei não é inédita, visto que o então presidente da Câmara dos Representantes, Newt Gingrich, visitou Taiwan em 1997. Contudo, a julgar pelas zonas de exercícios militares anunciadas pela China em resposta à visita de Pelosi, Pequim demonstrou uma clara intenção de romper o antigo acordo tácito entre China, Taiwan e Estados Unidos a respeito de certas linhas vermelhas que não devem ser cruzadas pelas três partes. A intenção da China foi demonstrar às outras partes que o PLA agora é capaz de projetar força além de Taiwan, no Pacífico e nas águas da costa leste de Taiwan. Tal capacidade pode até mesmo servir ao propósito de bloquear Taiwan. À medida que a capacidade do PLA de atingir Taiwan melhora, Xi Jinping pode ter mais cartas na manga para negociar diplomaticamente com os Estados Unidos.
Analistas associaram a escalada dos exercícios militares durante esta crise à ascensão mais ampla da China como uma grande potência. À medida que a influência global da China cresceu ao longo da década de 2020, Pequim tornou-se cada vez mais disposta a afirmar seus interesses naquilo que considera seus interesses centrais, sendo Taiwan o principal deles. Os exercícios são amplamente interpretados como parte de um esforço de longo prazo da China para normalizar e sustentar as operações do PLA em torno de Taiwan, ao mesmo tempo que melhora a credibilidade das opções coercitivas que não chegam a uma guerra cinética. Além disso, tem-se dado crescente atenção a 2027, um ano frequentemente citado por analistas de defesa como um marco até o qual se espera que o PLA tenha desenvolvido todo o espectro de capacidades necessárias para um potencial bloqueio ou invasão de Taiwan. A inteligência dos EUA também observou que Xi Jinping ordenou ao PLA que se preparasse para uma possível tomada de Taiwan até 2027.

O exercício da China em agosto de 2022 perturbou a região e os exercícios militares desencadearam temores de uma potencial invasão de Taiwan em alguns cantos dos países ocidentais, particularmente à luz da invasão russa da Ucrânia em 2022 e da crescente expansão militar da China. Esse temor foi intensificado pela aproximação da "Janela de Davidson", apelido dado à potencial janela de oportunidade para a China, quando finalmente poderá realizar uma invasão de Taiwan. Esse termo foi cunhado após o Almirante Philip Davidson ter feito declarações em uma audiência no Congresso em 2021, nas quais afirmou que a China poderia tentar alcançar a "reunificação" com Taiwan em um cronograma acelerado, até 2027, ano do centenário do PLA, quando se espera que se torne uma força totalmente inteligente, capaz de realizar operações conjuntas combinadas. O general Mark Milley revelou que a crença de Davidson derivava de um discurso do secretário-geral do PCCh, Xi Jinping, no qual ele exortou o PLA a antecipar seu cronograma para o desenvolvimento das capacidades necessárias para invadir Taiwan de 2035 para 2027.

Se o cronograma estiver correto, podemos esperar alguma ação ano que vem, quando a janela de Davidson estiver encerrada. Até lá, só podemos especular sobre cronogramas e o período apropriado do PLA tomar a iniciativa e iniciar a invasão de Taiwan.

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